‘Aos olhos da sociedade eu era uma pessoa irrecuperável das drogas’, conta Fabio de Martini, diretor da Casa do Oleiros

‘Aos olhos da sociedade eu era uma pessoa irrecuperável das drogas’, conta Fabio de Martini, diretor da Casa do Oleiros

Conversamos com Fabio Kikuchi de Martini, que completou 24 anos livre das drogas. Hoje diretor da Casa do Oleiros, sua primeira experiência foi com cocaína aos dez anos de idade. Roubou, traficou para conhecidos e vendeu todos os móveis de sua casa por três vezes, foram 10 anos de sofrimento e condenado pela sociedade como irrecuperável, mas Fabio encontrou forças para aceitar a internação em uma casa de recuperação. Confira abaixo a entrevista completa.

Como foi sua infância?

Nasci em 1978, em Mirandópolis, cresci com meus pais e uma irmã. Era um lar um pouco confuso porque meu pai bebia. Foi difícil por isso e também pelas dificuldades financeiras.

Quando conheceu as drogas?

Comecei muito cedo, com apenas 10 anos tive uma primeira experiência. Digo que tinha uma pré-disposição para o vício, sendo que a curiosidade foi um gatilho. Comecei cheirando cocaína, jogava bola e um rapaz ficou falando na minha cabeça que eu iria ter melhor desempenho. Usei para jogar uma partida, mas depois queria sentir a mesma sensação nos treinos, daí foi onde tudo desandou. Até comecei a trabalhar na roça (plantação de cana), mas não conseguia me firmar no trabalho. O problema é que depois da cocaína conheci o crack, aos 14 anos. Digo que depois disso foram seis anos de falência total na minha vida, pois usei drogas até os 20 anos.

Como conseguia o dinheiro?

Roubava em casa e traficava para conhecidos ficando com uma porcentagem para sustentar o vício. Fazia um bico com pintura ou carpindo um quintal, dava um jeito. Para buscar droga já fui para Campo Grande, Pedro Juan Caballero (Paraguai), Corumbá, ficava uns cinco dias sumidos em busca de droga.

Como sua família descobriu?

Quando eu tinha mais ou menos 13 anos. Eles sofreram um baque muito grande, mas é aquela história, o drogado mente e com isso fui levando como dava em casa. Foram muitos anos achando que estava sob controle, mas como minhas amizades estavam nesse mesmo nível não saia desse vício. Na caminhada das drogas não tem vida fácil, principalmente para o usuário que normalmente está fora do controle. Fumei a casa da minha mãe três vezes, tirei todos os moveis de dentro de casa e roubava botijão de gás. No ultimo estágio roubei todos os fios, eles ficaram 45 dias sem energia.

Como conseguiu dar a volta por cima?

Fiquei um ano injetando droga na veia, já tinha tido três overdoses, teve uma vez que tomei doze pontos na língua porque cortaram para me salvar de uma convulsão. Lembro que tinha roubado um certo valor e estava injetando dentro de uma catacumba (onde deposita os caixões) no cemitério. Quando deu 6 horas da manhã estava saindo desse local e encontrei uma senhora, ela estava com uma vassoura e balde para limpar o tumulo. Ela olhou pra mim e falou por três vezes: hoje mesmo Deus vai te visitar onde você estiver. Ela falou com muita firmeza e aquilo mexeu comigo. Mas é aquela coisa, não é simples assim, então saí do cemitério, comprei mais droga e voltei para lá, mas isso ficava martelando na minha cabeça. Quando foi 2 horas da tarde a policia foi no cemitério me prender, me levaram pra delegacia e deram voz de prisão. A minha mãe correu para achar uma solução e me ajudar, com isso ela encontrou uma vaga em uma casa de recuperação, na Desafio Jovem Peniel, em Três Lagoas. Preciso agradecer o Dr. Natanael que entendeu a minha situação no dia e liberou, pois aceitei ir para essa casa de recuperação, pois entendia que tinha perdido toda minha credibilidade, caráter e auto estima. Aos olhos da sociedade eu era uma pessoa irrecuperável. Foi no dia 4 de março de 1997, semana passada fez 24 anos que estou liberto. Nesse tempo consegui fazer alguns reparos com os danos que causei, tanto para a justiça como para muitas pessoas que lesei. A pessoa que mais me inspirou a sair das drogas foi a minha mãe, pois ela não desistiu nem de mim e nem do meu pai.

Quanto tempo em recuperação?

Fui inserido no tratamento de seis meses, mas depois fiquei mais quatro meses porque sabia que ainda não estava preparado para sair. Tive um proposito muito grande porque tive uma forte abstinência todos os dias durante mais de três meses. Lá me tornei cristão, entreguei a minha vida para Jesus.

E os enfrentamentos quando saiu?

Quando voltei para Mirandópolis precisei me posicionar diferente, mudar meu ciclo de amizade. As tentações são diárias, mas eu sabia onde estava o problema, me mantinha longe disso. Meu pai também parou de beber, então temos uma casa de paz, onde vivemos muito bem. O interessante é que depois que sai da casa de recuperação as pessoas me procuravam pedindo ajuda. Com isso comecei a encaminhar para Três Lagoas, depois de alguns anos decidimos abrir uma unidade terapêutica em Mirandópolis. Montamos uma equipe para formar a Elohin, abrimos a comunidade em 2012. Cuidamos de muita gente, muitos libertos. Tinha um bom trabalho na usina, mas por prazer acabei saindo para me dedicar 100% a essa causa. Hoje sou diretor da Casa do Oleiro, estamos atendendo 15 pessoas. Com a graças de Deus constitui uma família, sou casado (Erika) e tenho dois filhos. Tive o prazer de ter a minha vida de volta. O recado é para não desistir da vida, pois tudo tem jeito. Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará.