‘A minha mãe não teria aprendido a fazer queijo se não fosse os conselhos do avô Afonso,’, lembra Juliana Toledo

‘A minha mãe não teria aprendido a fazer queijo se não fosse os conselhos do avô Afonso,’, lembra Juliana Toledo

Conversamos com Juliana Toledo, mirandopolense que mora em Fortaleza e é proprietária da Dom Afonso. Fundada em 2009, a história da empresa começou em 1987, aqui em Mirandópolis, Dona Maria (in memoriam), fundadora, incentivada incansavelmente pelo seu sogro, Afonso, iniciou a produção de queijo provolone no sítio da família. Confira abaixo a entrevista completa.

Quais as lembranças de Mirandópolis?

Não poderia ter tido uma infância ou adolescência melhor. Tinha total liberdade e educação pública de qualidade. A forma como a gente cresceu e foi se tornando adolescente não tem como não ter amor por Mirandópolis. Uma coisa que acho fantástico é ter crescido próximo de uma comunidade japonesa. A possibilidade de conviver com outra cultura é sensacional. Além disso, tive uma infância no sítio que me permitiu fortalecer um amor em plantar. Hoje aqui no fundo da fábrica tenho uma horta, uma pequena floresta, com muita coisa misturada e tudo isso veio de Mirandópolis. Uma coisa que não esqueço é o sorvete do Marabá, as festas do BonOdori também eram sensacionais, o leilão da Apae, o Interact onde eu passei boa parte da minha adolescência e fazíamos muitas coisas bacanas.

Onde começou a paixão por queijo?

O meu pai tinha leite sobrando no sítio e conheceu um dos queijeiros do Laticínios Tânia. Ele perguntou se poderiam ensinar a minha mãe (Dona Maria) a fazer queijo porque sempre sobrava leite, com isso a minha mãe começou a fazer os queijos, mas ela perdia muito leite porque era difícil. Com isso ela foi conversar com meu avô Afonso, pois ela estava muito chateada e foi se lamentar para o meu avô dizendo que não ia aprender porque era muito difícil. O meu avô falava para ela ter calma e perder o quanto de leite fosse preciso, porque quanto mais ela perdesse estaria aprendendo, então foi o meu avô que incentivou a minha mãe a aprender a fazer queijo. Em 1991, mais ou menos, o meu pai pegou o casarão (casa próximo da rodoviária) para montar a lanchonete, com isso o queijo que a minha mãe fazia era vendido lá. Depois saímos de lá, mas mesmo assim a minha mãe vendia pela cidade.

Qual a sua trajetória profissional?

Saí de Mirandópolis para fazer faculdade em São José do Rio Preto, foi quando a minha mãe mudou para o Pará. Depois de uns quatro anos (cursou quatro anos de Direito) também fui para o Castanhal, no Pará. Lá a minha mãe conheceu uma senhora que disponibilizou o fundo da casa dela para fazer queijo, com isso passamos a vender igual ela fazia em Mirandópolis. Ficamos uns quatro anos em Castanhal, foi quando a minha mãe foi para Fortaleza porque meu pai já estava trabalhando lá e decidiu que era melhor mudar. Nesse tempo o cara com quem o meu pai foi trabalhar queria abrir um laticínio, foi a oportunidade para mudarmos de vez. Mas acabou não dando certo nesse laticínio, então fomos atrás da incubadora de empresas, que fica dentro da universidade. Inscrevi o projeto junto com a minha mãe, em 2009, que na época era para a produção de queijo com adição de quitosana, foi quando começou o estudo e o fortalecimento da ideia do alimento funcional. Foi ai que nasceu a Dom Afonso, nós decidimos por esse nome porque se não fosse pelo avô Afonso a minha mãe não teria aprendido a fazer queijo, por causa da insistência e dos conselhos que ele deu no início. O primeiro produto a ser desenvolvido nesta nova fase foi um queijo provolone com adição de quitosana, composto derivado da casca do camarão que impede a absorção de gordura no organismo.

A empresa tem foco inovador?

Até então a gente só fazia queijo, mas depois disso começamos a trabalhar com projetos de pesquisa na parte de alimentos funcionais. Sempre fiquei no administrativo, comercial e na parte de pesquisa, enquanto a minha mãe cuidava da parte de produção e tudo mais. A gente começou a vender para uma rede de supermercados, mas a gente só fazia queijo desidratado. Em 2013, a minha mãe ficou doente e acabei deixando a empresa só com um funcionário, que trabalha comigo até hoje, e fomos para Barretos. Isso durou cerca de dois meses, quando ela faleceu tive a opção de fechar a fábrica ou tocar o negócio. A gente sempre trabalhou pesquisando sobre alimentação natural, alimentação funcional e com muitos projetos de pesquisa. Em 2014, comecei a fazer a Ghee, que substitui a manteiga comum de forma mais saudável e econômica (rendimento até 30% superior). Nós fomos uma das primeiras empresas no Brasil a começar realmente a produzir, junto com a Lotus e outras. Nós começamos e estamos até hoje.

São produtos naturais?

Trabalhamos apenas com a alimentação natural, sem utilizar nenhum tipo de produto químico e sem usar nenhum tipo de conservante. O nosso carro chefe é a produção de Ghee e hoje a gente está bem conceituado no Brasil. Vendemos para todo o país e provavelmente vamos começar a trabalhar também com a exportação, porque o atual cenário do Brasil está pedindo isso, com essa alta do dólar está vindo muito comprador procurando por produto aqui, então é uma coisa que naturalmente em algum momento vai acabar acontecendo. A gente tem o queijo parmesão desidratado, que no Brasil tem uma forma bem única de produção. Todos os nossos produtos são sem lactose e agora, no próximo ano nós também vamos começar a trabalhar de 2022 até o meio de 2023 para ser uma empresa totalmente verde, então vamos fazer tudo através da geração de energia solar, não vamos ter a emissão de gás carbônico e todos os nossos equipamentos vão ser elétricos para serem movidos pela energia solar.