‘Amo de coração essa cidade, são mais de 36 anos só no salão trabalhando’, lembra Roberto Marques

‘Amo de coração essa cidade, são mais de 36 anos só no salão trabalhando’, lembra Roberto Marques

Conversamos com Roberto Marques, mirandopolense que nasceu em 1961, que ainda na infância começou a frequentar a barbearia do seu pai Teodoro para aprender a cortar cabelo. No ramo desde 1984, Roberto é casado e tem três filhos. Confira abaixo a entrevista completa.

Como foi sua infância?

Cresci com nove irmãos, mas tenho um irmão por parte de pai, porque a primeira mulher do meu pai morreu no parto. Cresci em Mirandópolis, morei na rua Bahia e depois fomos para a rua Santos Dumont, que foi onde passei mesmo a minha infância. Jogava bola no meio da rua, brincava, corria, eram outros tempos. As brincadeiras eram esconde esconde, pé na lata, mãe da rua (risos).

Quando começou a trabalhar?

Meu pai trabalhava e eu com 12 anos já vinha no salão para engraxar sapato. Meu pai montou seu salão em 1948, mas ele já tinha trabalhado em outros lugares antes. Mas logo parei de engraxar porque eu era da Polícia Mirim e consegui arrumar um emprego no escritório do Oswaldo Mendes, onde eu trabalhei de office boy por uns dois anos, dos 12 aos 14 anos, depois que eu sai de lá eu voltei a engraxar. Aí o gerente da Pernambucanas foi no salão cortar o cabelo, fui engraxar o sapato dele e perguntei se ele não tinha um emprego para mim. Uma semana depois ele me chamou e eu fiquei lá por oito anos. Lá comecei como pacoteiro, porque eu era menor de idade, mas fui um dos primeiros menor a passar a ser vendedor, com 16 anos iniciei como vendedor na Pernambucanas, daí sai em 1983.

O que fez na sequência?

Em 1983 eu fui arriscar a trabalhar como viajante, meu irmão tinha arrumado esse serviço, mas não deu muito certo. Aí foi quando o meu pai disse “vai aprender a cortar cabelo e larga a mão de trabalhar pros outros”. Ele sempre usou a frase “larga a mão de ser boi para ser ferrão”. Então eu aprendi a cortar cabelo com ele e estou aqui trabalhando na função até hoje. Aqui no salão eu vi várias gerações passarem, em 84 comecei a trabalhar no salão, então já tenho 36 anos cortando cabelo, tenho freguês que eu cortava o cabelo quando era criança e hoje já estou cortando dos filhos dele.

Quais as lembranças do seu pai (Teodoro)?

O meu pai todo mundo sempre lembra dele com a turma do catira. Eu também dançava (risos), o Zinho, meu irmão, o Serginho. O primeiro lugar que a gente foi dançar na televisão foi na TV Tupi com Moacyr Franco, depois que foi na Porteira do Oito, na Record, no programa da Inezita Barroso, mas ai já não estava mais, já era outra turma. O grupo que chamava Catireiros Mirins de Mirandópolis, levando o nome de Mirandópolis para muitos lugares, a catira era a paixão do meu pai. Engraçado que meu pai ficou trabalhando até uma semana antes dele morrer, ele faleceu em 1998, mas uma semana antes dele ser internado ele estava aqui cortando cabelo.

Qual a importância da família?

Eu me casei em 1989, namoramos uns dois anos, nos casamos e tivemos três filhos. Para mim a família é tudo, a minha esposa é o meu braço direito e esquerdo, nós lutamos juntos e hoje graças a Deus estamos tranquilos e levando uma vida legal. Minha mãe não era de aparecer muito e pouca gente conheceu ela. Minha mãe nunca trabalhou em comércio, sempre foi de casa, porque um filho nascia e o outro já vinha atrás. Ela viveu até os 91 anos, ela chamava Maria Zanquetin, uma guerreira que é o nosso exemplo também.

Nunca pensou em sair de Mirandópolis?

Eu amo de coração essa cidade, nasci aqui e acredito que vou ser enterrado aqui mesmo. Quando eu sai da Pernambucanas, naquela época que tentei ser viajante, até pensei em ir embora, mas foi quando o meu pai falou “não, você vai aprender a cortar cabelo!”. No começo eu até resisti um pouco querendo sair e ir embora para buscar novas oportunidades, mas acabei ficando e foi a melhor escolha da minha vida.

Como passou pela pandemia?

A pandemia foi triste demais, mas tenho que agradecer muito a Deus, porque a minha profissão é uma que você tem muito contato, então eu acho que o pai lá de cima orou muito por mim, porque não tem como você ver se a pessoa está ou não com o vírus, as vezes ela não está hoje ou nem sabe, mas amanhã está, mas graças a Deus passou. Foi um período difícil que tivemos que fechar e sem renda ficou complicado, por isso que eu falo que eles (família) são o meu braço direito, minha mulher é professora e me ajudou muito.