De Oklahoma a Mirandópolis: a história de Shannon Kerr, a americana que trocou os EUA pelo interior de São Paulo

De Oklahoma a Mirandópolis: a história de Shannon Kerr, a americana que trocou os EUA pelo interior de São Paulo

Foto: Arquivo Pessoal / Shannon Kerr

Com quase 50 anos, sotaque ainda presente, mas fluente em português, Shannon Kerr carrega uma trajetória de superação e paixão pelos cavalos que começou na infância difícil nos Estados Unidos e passou pela Itália até encontrar, no interior de São Paulo, seu novo lar. Radicada em Mirandópolis, Shannon é hoje uma referência nacional na exportação de cavalos e compartilha, nesta entrevista, os caminhos — nem sempre fáceis — que a trouxeram até aqui.

Como foi sua infância?

Nasci e cresci no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. Na verdade, a minha mãe me abandonou quando eu tinha dois anos de idade. Fui criada apenas pelo meu pai, que era policial, mas ele morreu em serviço quando eu tinha 11 anos. Então, fui criada pelos meus avós paternos. Não tenho irmãos, nem tios. Meus avós eram pessoas muito boas, mas faleceram quando eu tinha 19 anos. Desde então, passei a viver sem meus familiares.

Qual a sua formação acadêmica?

Formei em Zootecnia, mas na verdade queria cursar Veterinária, mas lá nos EUA é diferente daqui. É muito difícil de entrar e muito caro. Na época, custava quase 100 mil dólares por ano. Cheguei a ser aceita, mas não consegui ir porque precisava trabalhar. Terminei a faculdade e consegui um bom emprego no governo. Mesmo assim, nessa época eu já treinava cavalos para provas de tambor.

E você sempre teve essa paixão por animais?

Sim, sempre amei, mas não veio da minha família. Fui criada na cidade, sem cavalo, sem animais, mas era apaixonada por cavalos, fazendas, esse tipo de vida. Tive a oportunidade de ir para a Itália para trabalhar com o governo e com cavalos, e fui aos 23 anos. Fiquei mais de seis anos lá. Trabalhava para o governo e, ao mesmo tempo, comprava cavalos baratos, treinava e vendia. Posso dizer que ganhava mais com os cavalos do que com meu trabalho (risos).

E depois dessa experiência na Itália?

Depois de seis anos, voltei para o Texas para continuar treinando cavalos. Já estava pensando em parar e voltar a trabalhar para o governo, quando conheci meu marido, o Marcelo, que é brasileiro e trabalhava nos Estados Unidos havia quase 20 anos.

Antes de conhecer ele, você já tinha alguma ligação com o Brasil?

Tinha ido uma vez, antes de conhecê-lo, para dar um curso em Barretos. Foi algo rápido — dei o curso, corri tambor no rodeio de Barretos e voltei.

Como foi a mudança para o Brasil?

Nos conhecemos em 2010 e, em 2011, ele me disse que queria parar de trabalhar nos EUA e investir todo o dinheiro que tinha juntado em gado no Brasil. Viemos inicialmente para morar em Valparaíso, onde a família dele tinha uma propriedade. Ficamos lá pouco tempo. Depois fiz uma parceria com um pessoal de Bauru e nos mudamos para lá por cerca de seis anos. Mais tarde, o Marcelo comprou o sítio onde moramos hoje, entre Mirandópolis e Alianças, e nos mudamos para cá.

Shannon trabalha com exportação de cavalos. Foto: Arquivo Pessoal / Shannon Kerr

Como foi sua adaptação no Brasil?

Acredito que minha experiência na Itália ajudou muito. Lá foi difícil: não falava o idioma, a comida era diferente, a cultura também. Mas hoje vejo que aquilo foi Deus me preparando para o Brasil. Se eu tivesse vindo direto para cá, acho que não teria ficado, por conta das diferenças culturais. O Brasil tem seus problemas, mas os Estados Unidos também não são perfeitos. Lá as pessoas vivem para trabalhar. Aqui vocês vivem mais, têm mais tempo para aproveitar a vida. Acho isso sensacional.

E você continua trabalhando com cavalos?

Sim, dou muitos cursos e continuo treinando e vendendo cavalos para os Estados Unidos e Canadá. Acredito que hoje sou uma das maiores exportadoras de cavalo do Brasil.

E as festas de halloween, ainda faz?

Fiz por alguns anos, deixava a propriedade toda caracterizada, sempre gostei de organizar essa festa, mas parei nos últimos anos por algumas questões particulares. Era uma festa que arrecadávamos algo para as entidades, foram festas bem legais.

E Mirandópolis, gosta daqui?

Gosto muito de Mirandópolis. Nunca gostei de cidade grande — gosto de visitar, passear, mas não para viver. Não gosto de semáforos, trânsito… Agora, as lombadas daqui, acho demais (risos), é muita lombada!

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