Gols, lutas e conquistas: a vida de Carlinhos até chegar no comando do esporte em Lavínia
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Carlos Pereira dos Santos, 58 anos, mais conhecido como Carlinhos, é daqueles nomes que atravessam gerações em Lavínia. Ex-jogador de futebol profissional, ex-cortador de cana, ex-zelador, ex-servente de pedreiro, professor de Educação Física e agora Diretor de Esportes e Lazer. Sua história é uma verdadeira aula de resiliência, humildade e amor por Lavínia. Com passagens por clubes da terceira divisão paulista e uma decisão corajosa de largar os gramados para criar os filhos com dignidade em Lavínia, Carlinhos hoje colhe os frutos de uma trajetória construída no suor, na bola e no coração. Em entrevista ao jornal AGORA NA REGIÃO, ele relembra sua vida dentro e fora dos campos, fala sobre desafios, superações e o papel do esporte como ferramenta social.
Onde você nasceu?
Nasci em Presidente Bernardes, mas minha vida de verdade começou em Lavínia. Cheguei aqui com quatro anos de idade e nunca mais fui embora. Foi aqui que formei minha família, vivi minhas batalhas e conquistas.
Como foi sua infância?
Foi muito boa. Eu morava em sítio, gostava de montar em cavalos e bois, subir em árvores, como se diz por aí, foi uma infância raiz.
Quando o futebol entrou na sua vida?
Desde que me entendo por gente. Era aquela criança que passava o dia com a bola no pé, jogando na rua, no campinho de terra. Mas profissionalmente, entrei em 1987, jogando por Andradina. Foram três anos por lá, muito aprendizado e muito chão batido.
Você lembra de algum jogo inesquecível dessa época?
Com certeza o mais marcante foi em 1989, quando fui chamado para jogar contra o juvenil do Palmeiras em Presidente Venceslau. Aquilo mudou minha vida. Joguei bem e a equipe do Corinthians de Venceslau me chamou. Ali começou minha segunda fase no futebol, jogando profissionalmente por Venceslau.
Como foi essa experiência na terceira divisão paulista?
Foi incrível e desafiadora. A estrutura era limitada, a visibilidade era pequena, mas a paixão pelo esporte era enorme. Joguei por Venceslau de 1990 a 1992. Conheci muitos companheiros que viraram amigos e aprendi muito. Em 1990 recebi uma proposta do União de Mogi das Cruzes, que me colocou frente a frente com Neymar da Silva Santos (Neymar Pai), que era emprestado pelo Santos ao Mogi. Nessa época, o Neymar Jr. ainda não tinha nem nascido. Fiquei lá um mês, mas não cheguei a acertar porque os caras da diretoria do Corinthians pediram 500 salários mínimos na época, que era o valor do meu passe. Nesse meio tempo venceu o prazo de inscrição e tive que voltar para Venceslau, mas valeu, porque no final fomos campeões paulista de 1990.
Você teve chance de seguir em clubes maiores?
Sim, mas nesse período eu ja tinha família e filhos pequenos. O futebol não pagava bem como hoje. Para que eu pudesse alçar voôs mais altos era necessário ter paciência, assim como em toda profissão, mas eu tinha que pensar também na minha família. O meu salário nessa época mal dava para sobreviver. Com toda essa situação acabei optando por não seguir no futebol.
Foi difícil tomar essa decisão?
Muito. Mas era o certo a se fazer naquele momento. Eu tinha filhos pequenos, pouca estrutura e precisava garantir um sustento fixo. O futebol naquela época era muito incerto, ainda mais na terceira divisão. Preferi largar o sonho para garantir a estabilidade em casa.
O que você fez depois de deixar os gramados?
Trabalhei em usinas de açúcar e álcool como cortador de cana e como servente de pedreiro. Foi puxado, mas foi o que me deu dignidade naquele momento. Depois entrei na Prefeitura de Lavínia, como zelador do ginásio municipal. E de lá nunca mais saí do meio do esporte. Fui auxiliar esportivo, fiz de tudo um pouco.
Você foi um dos responsáveis por trazer a Copinha para Lavínia. Como foi isso?
Em 2003, Valparaíso foi sede da Copa Sul Americana da Paz e Lavínia cedeu o campo para alguns jogos. O pessoal da organização ficou impressionado com nossa estrutura. Eu sempre incentivei, conversei com o Salvador (prefeito), e ele topou. Em 2005 sediamos pela primeira vez. Desde então, viramos referência.
Qual a importância dessa Copa para Lavínia?
Gigante. Movimenta o comércio local, atrai famílias, empresários do futebol, e principalmente dá visibilidade aos nossos meninos. Hoje temos escolinhas cheias, porque os garotos sonham em jogar essa copa. E sonhar muda a vida.
Em que momento você decidiu estudar Educação Física?
Foi em 2008. Eu tinha 42 anos e pedi um aumento de salário na prefeitura. O prefeito me confrontou sobre a minha formação e aquilo me acendeu uma luz. Corri atrás e entrei na faculdade Stella Maris, em Andradina. Me formei em 2011. Nunca é tarde pra estudar.
Como foi dar aula depois de se formar?
Foi uma experiência maravilhosa. Dei aula em escolas entre 2016 e 2020. Aprendi muito com os alunos. Muitos deles vinham de famílias com dificuldades. A escola e o esporte eram os únicos lugares seguros para eles. Sempre procurei acolher, ter paciência, orientar, fazer com que se sentissem valorizados, mas, ser firme também quando preciso. É importante as crianças e jovens entenderem que o futebol ou qualquer outro esporte, é lazer sim, porém, também tem regras que precisam ser respeitadas e acima de tudo é importante manter a cordialidade entre os companheiros de equipe e com os adversários.
Você trabalha com apoio do poder público?
Graças a Deus sim. Eu sempre trabalhei em parceria com a prefeitura. O Salvador sempre acreditou no esporte como ferramenta social. Em 2021, pós-pandemia, não tínhamos mais jogadores, os treinos estavam vazios. Fizemos uma campanha convidando as crianças a voltarem aos treinos. Apareceram alguns alunos sem chuteira. Falei com ele, e no outro dia já tínhamos 28 pares novos.
E hoje, como Diretor de Esportes, qual é o sentimento?
Gratidão. Pela confiança que recebo das crianças, dos pais, da população. Fico feliz por ter uma trajetória limpa, por ter lutado e vencido.
O que você mais valoriza na sua trajetória?
A capacidade de recomeçar. Já fui jogador, cortador de cana, zelador, professor e hoje sou diretor. Em nenhum momento deixei o orgulho me dominar. Cada etapa teve seu valor.
Que conselho você deixa para os jovens de Lavínia?
Estudem, sonhem, respeitem suas famílias. Se for para sonhar com o futebol, sonhem alto, mas tenham um plano B.

