Duas faces da coragem
Foto: Padre Paulo Ricardo
Ouvia dias atrás a pregação de um bispo que falava sobre a coragem, que leva o fiel a suportar em Cristo as tribulações, não desanimar diante da meta ainda não alcançada e resistir àquilo se opõe ao projeto de Deus. Ele ensinava que muitas vezes a coragem se manifesta na evasão, nem sempre no enfrentamento: a depender do caso, o corajoso, por sensatez e prudência, deve fugir, e citou o trecho em que Jesus se desvencilhou dos inimigos quando ainda não havia chegado a sua hora: “Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se” (Evangelho de São Lucas, cap. 4, vv. 29-30).
Na vida cotidiana vemos isso, como disse o bispo. E noutras ocasiões, como estava subentendido em sua pregação, a coragem se manifesta não na evasão, mas no enfrentamento. Uma prova disto é um dos maiores milagres da história da Igreja, protagonizado pelo Papa e Doutor da Igreja São Leão Magno (aprox. 400-461), apoiado na confiança na Providência divina: no ano de 452, o famoso Átila, rei dos hunos (um povo de origem asiática e muito temido por sua destreza bélica), já havia conquistado partes do norte da Itália e aproximava-se de Roma com suas tropas. Documentos antigos afirmam que ao se aproximar de São Leão Magno com sua pequena comitiva, o rei dos hunos, que se autodenominava ‘flagelo de Deus’, viu os Apóstolos São Pedro e São Paulo, os quais, com uma expressão terrível e armados de espadas, lhe ordenaram que batesse em retirada.
Mas como sabermos quando bater em retirada e quando enfrentar? Precisamos da comunhão com Deus. A intimidade com Ele por meio da oração constante, da prática das virtudes e da recepção dos Sacramentos permite ao fiel agir como convém em cada situação. Em todas as situações, temos que elevar nossas súplicas, para que o Espírito Santo indique a direção a tomar. E para quem tem condições, uma vida profunda de estudos, conduzida e iluminada por Ele, muito colabora na orientação do agir.
Como ensina Jesus no Evangelho de São João, “sem mim nada podeis fazer” (cap. 15, v. 5). Assim, peçamos-Lhe coragem, discernimento, sabedoria e todos os dons, para seguirmos firmes da maneira como também Ele ensina no Evangelho de São Mateus: “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (cap. 10, v. 16).

