Especialista em comportamento de crianças e adolescentes fala sobre suas raízes em Mirandópolis e a trajetória que a levou ao reconhecimento nacional

Especialista em comportamento de crianças e adolescentes fala sobre suas raízes em Mirandópolis e a trajetória que a levou ao reconhecimento nacional

Foto: Divulgação

Nascida e criada em Mirandópolis, Renata Conrado Bonadio carrega consigo uma infância marcada por liberdade, convivência e vínculos afetivos que moldaram sua visão de mundo. Hoje, aos 44 anos, é referência nacional em comportamento infantojuvenil, habilidades socioemocionais e educação parental. Em entrevista ao AGORA NA REGIÃO, ela relembra suas origens, conta como sua história pessoal a conduziu à área da educação emocional e fala sobre os desafios atuais enfrentados por famílias, escolas e jovens.

Como foi sua infância?

Nasci e vivi em Mirandópolis até os 17 anos e posso dizer, sem exagero, que tive a melhor infância do mundo. Eu tinha 30 primos, muito próximos, além de muitos amigos. Brincávamos na rua o tempo todo de polícia e ladrão, esconde-esconde, pega-pega, pique-bandeira. Também fazíamos bolinhos de barro, teatrinho e brincávamos muito de boneca. Para brincar com os amigos, bastava pegar a bicicleta e ir até a casa deles. Para brincar com os primos, era só pular o muro, já que minha avó e minha tia moravam na rua de cima. Minha infância foi repleta de brincadeiras ao ar livre e de convivência com muitas crianças. Isso me proporcionou habilidades socioemocionais que hoje são mais difíceis de desenvolver de forma natural.

O que mais marcou sua formação pessoal na cidade?

Crescer em Mirandópolis me trouxe vivências que moldaram profundamente minha forma de lidar com pessoas, desafios e conflitos. Tive uma infância livre, cheia de experiências, boas e difíceis, que contribuíram para o amadurecimento do meu cérebro e para desenvolver a capacidade de resolver situações com simplicidade e clareza. Era como viver em uma grande comunidade. A família era numerosa, próxima, sempre apoiando uns aos outros. Hoje, com famílias menores, vidas corridas e questões de segurança, tudo é mais desafiador, especialmente para quem educa filhos. Em Mirandópolis, crescer era sinônimo de convivência, contato humano e aprendizado constante.

Você se interessava por comportamento humano na adolescência?

Sim, desde muito cedo. Minha tia, Sônia Regina Conrado, psicóloga muito querida na cidade, sempre foi uma referência de cuidado e acolhimento. Ela me ajudava nos estudos e eu dizia que queria estudar Psicologia e trabalhar com crianças. Também gostava de cuidar dos primos mais novos. A maternidade e o universo infantil sempre me encantaram. Além disso, minha mãe, Terezinha Bertuzzo, professora da Educação Infantil da Escola Pombo Correio, foi uma grande inspiração na minha trajetória.

Quando e por que você decidiu deixar Mirandópolis?

Saí de Mirandópolis porque meu pai, Luís Augusto Conrado (o Guto), que era dentista, foi estudar Engenharia Biomédica em São José dos Campos. A mudança foi necessária para acompanhar sua nova carreira acadêmica. Foi um período muito difícil, pois eu estava no auge da adolescência. Deixei familiares, amigos queridos e meu namorado — hoje meu marido, Renato Bonadio. Apesar disso, a mudança foi essencial para meu amadurecimento. Precisei me virar, fazer novas amizades, aprender a circular em uma cidade grande. Dois anos depois, consegui ingressar no curso de Psicologia em São Paulo.

Onde você se formou e como escolheu a área de comportamento de crianças e adolescentes?

Comecei Psicologia, mas precisei interromper por questões financeiras. Trabalhei anos no Shopping Iguatemi, o que ampliou minha experiência com pessoas. Depois iniciei Marketing, criei um blog em 2004 e fui convidada por uma empresa de treinamentos para trabalhar na área. Foi uma experiência transformadora e me levou para o universo da educação. Fiz MBA em RH e, com o nascimento da minha filha, o desejo de trabalhar com crianças renasceu. Criei meu canal no YouTube, hoje com mais de 52 mil inscritos, e me especializei em diversas áreas como Coaching Infantil, Socioemocional, Educação em Sexualidade e Neuropsicopedagogia. Atualmente curso Sociologia e, na sequência, Psicopedagogia.

Renata durante interação com criança. Foto: Arquivo Pessoal / Renata Conrado

Como você descreve seu trabalho hoje?

Sou especialista em comportamento infantojuvenil, habilidades socioemocionais e educação sexual protetiva. Atendo demandas como birras, conflitos, bullying, dificuldades emocionais, padrões comportamentais, desmame, desfralde, sono e desafios escolares. Atuo em escolas, com atendimento infantil e adolescente presencial, orientação parental online e treinamentos para equipes pedagógicas.

Quais são as demandas mais comuns das famílias atualmente?

Nas crianças pequenas: birras e dificuldade de regulação emocional. Nas maiores e adolescentes: conflitos, questões emocionais e desafios comportamentais.

Como a tecnologia impacta o comportamento infantil e adolescente? Quais cuidados são essenciais?

A tecnologia influencia profundamente o desenvolvimento. Pode gerar excesso de estímulos, falta de concentração, irritabilidade, problemas de sono e comparação constante.
Alguns cuidados: Limites de tela, fazer atividades ao ar livre, acompanhamento do conteúdo e não usar tela como calmante.

Qual é o papel da escola nesse processo de orientação e cuidado emocional?

Família e escola dividem responsabilidades. As escolas recebem crianças com cargas emocionais diversas, vindas de conflitos familiares, excesso de telas e rotinas aceleradas. Sem preparo pedagógico e emocional, a aprendizagem não acontece. Por isso, preparo, parceria e comunicação são essenciais.

Mesmo morando fora, você mantém vínculos com Mirandópolis?

Sim, mantenho amizades e tenho familiares na cidade. Durante a pandemia, inclusive, fiquei cerca de seis meses aí.

O que sente quando retorna à cidade?

Eu amo Mirandópolis. Cada retorno é um mergulho na minha infância: pé no chão, balanço, mato, vacas, pássaros. Minha filha vivenciou um pouco disso na pandemia. Foi muito especial.

Pensa em trazer algum projeto para Mirandópolis?

Com certeza! É só me chamar.

Que conselho deixa aos pais e responsáveis?

É preciso abandonar frases como “na minha época era diferente”. Crianças e adolescentes vivem hoje uma realidade emocional mais pesada, acelerada e conectada. Pais precisam estar presentes, dar limites com respeito, acolher e orientar — sem comparar gerações. A responsabilidade dos adultos é maior do que nunca.

Por fim, qual recado deixa para Mirandópolis?

Mirandópolis é onde guardo minhas raízes, minhas primeiras histórias e grande parte do que me tornei. Que a cidade continue sendo um espaço de simplicidade, afeto e comunidade. Sigam cuidando uns dos outros e mantendo viva essa essência tão especial que só Mirandópolis tem.

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