Dia da Gula vira alerta: nutricionistas orientam sobre equilíbrio, saúde e relação consciente com a alimentação

Dia da Gula vira alerta: nutricionistas orientam sobre equilíbrio, saúde e relação consciente com a alimentação

Foto: Montagem / Arquivo Pessoal

Celebrado em 26 de janeiro, o Dia da Gula costuma ser lembrado de forma descontraída, associado a exageros à mesa e permissões fora da rotina. No entanto, para nutricionistas ouvidas pela reportagem, a data pode — e deve — ser usada como um alerta para refletir sobre a relação com a comida, os limites entre prazer e excesso, os riscos da compulsão alimentar, da obesidade e também do uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento, como o Mounjaro, sem acompanhamento médico.

A nutricionista Ariane Maeda explica que sentir prazer ao comer é algo natural e faz parte de uma relação saudável com a alimentação. O problema surge quando esse prazer deixa de ser consciente. “O prazer em comer deixa de ser saudável e se torna compulsão alimentar quando a pessoa passa a comer para aliviar emoções, sente culpa ou ansiedade após comer, percebe impactos negativos na saúde e tenta parar, mas não consegue”, afirma. Segundo ela, o equilíbrio é o ponto-chave. “A comida deve fazer parte da vida, mas não pode controlar emoções ou a saúde.”

Na mesma linha, a nutricionista Gabriela Mori, especialista em comportamento alimentar e endocrinologia, reforça que o prazer em comer, por si só, não leva à compulsão. “O ponto de virada acontece quando a relação com a comida perde consciência e autonomia, passando a ser guiada pelo medo, pela culpa e pela tentativa constante de controle”, explica. Ela destaca que nem todo comportamento alimentar disfuncional configura um transtorno, mas já pode gerar sofrimento. “O alerta surge quando esse padrão deixa de ser pontual e passa a se repetir ao longo do tempo, com sofrimento emocional e perda de autonomia.”

Gabriela Mori, especialista em comportamento alimentar e endocrinologia. Foto: Divulgação

A compulsão alimentar, segundo as profissionais, pode estar associada ao aumento do risco de obesidade e de outras doenças, mas não de forma automática. Gabriela ressalta que a obesidade é uma condição multifatorial. “Quando episódios de perda de controle se repetem dentro de um contexto alimentar desorganizado, eles podem contribuir para o ganho de peso e alterações metabólicas, mas isso não acontece de forma isolada”, pontua. Entre os sinais de alerta estão alterações frequentes de peso, desejos intensos por doces, cansaço constante, problemas digestivos, queda de cabelo, alterações de humor e uma relação com a comida marcada por culpa e ansiedade.

A nutricionista clínica Carla Righetto acrescenta que dietas muito restritivas também podem favorecer episódios de compulsão. “O prazer em comer deixa de ser saudável quando a comida vira uma fuga emocional e há perda de controle. Isso é comum em dietas rígidas ou longos períodos de restrição, além de possíveis desequilíbrios hormonais e metabólicos”, explica. Ela alerta que, quando esses comportamentos acontecem com frequência e causam sofrimento emocional, é fundamental buscar ajuda profissional. “O tratamento deve ser multidisciplinar, com foco não apenas no peso, mas na reconstrução da relação com a comida e na saúde a longo prazo.”

MEDICAMENTOS PARA EMAGRECIMENTO

Outro tema que preocupa as especialistas é o crescimento do uso de medicamentos para emagrecimento sem orientação adequada. Gabriela Mori destaca que o uso indiscriminado de medicamentos como o Mounjaro pode trazer riscos importantes. “Entre os principais perigos estão a perda excessiva de massa muscular, desnutrição, deficiências nutricionais, fragilização do metabolismo e maior chance de reganho de peso após a suspensão do medicamento”, alerta. Ela ainda cita possíveis complicações clínicas, como gastroparesia e pancreatite, além do risco do uso de medicações clandestinas.

Carla Righetto atua como nutricionista clínica. Foto: Divulgação

Carla Righetto reforça que o medicamento não deve ser visto como atalho. “O Mounjaro não é uma solução isolada. Ele pode ser uma ferramenta eficaz quando bem indicado, mas só é seguro quando associado a acompanhamento médico e nutricional, exames periódicos, atividade física e mudança real de estilo de vida”, afirma. Segundo ela, o acompanhamento profissional é essencial para ajustar doses, monitorar exames e garantir uma alimentação adequada mesmo com menor volume alimentar, preservando a massa magra e a saúde geral.

Para Ariane Maeda, o Dia da Gula pode ser um convite à reflexão, não à culpa. “A gula não se refere apenas a comer demais, mas ao excesso e à falta de equilíbrio nos hábitos. É uma reflexão importante para todos nós”, pontua.

Ariane Maeda, nutricionista. Foto: Divulgação

Gabriela Mori complementa que cuidar da alimentação vai muito além de controlar o que se come. “Envolve olhar para emoções, rotina, saúde mental e contexto de vida. O problema não é o prazer, mas quando a comida se torna o único lugar de conforto ou anestesia emocional”, conclui.

Assim, mais do que celebrar exageros, o Dia da Gula pode servir como um momento de conscientização sobre escolhas, limites e autocuidado, reforçando que saúde alimentar é construída com equilíbrio, orientação profissional e respeito aos sinais do próprio corpo.

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