Artigo: memórias de uma casa de tábuas, por Ademar Bispo*
Foto: Criada via ChatGPT
A noite está muito escura, nenhuma estrela no céu, e o calor do mês de dezembro é insuportável. Estou sozinha, sou a última casa de tábuas desta quadra da rua São João. Todas as outras casas são de alvenaria. Fazendo companhia está o velho poste de madeira e sua lâmpada. Ele, logo, logo, também perderá seu lugar e será substituído por um de cimento.
Amanhã, cedinho, o Roque Barbeiro virá, com alguns homens, me desmancharem. Serei levada para seu sítio, conhecerei outros moradores, e poderei servir de abrigo a outra família, verei novas paisagens e escutarei conversas diferentes.
Aqui tive vários moradores, mas estes últimos me marcaram mais, pois ficamos juntos por vinte anos. Convivi com suas angústias, seus medos, suas alegrias, sucessos e decepções. Ouvi muita coisa: a conversa dos garotos que se reuniam na calçada à minha frente, as fofocas das mulheres vizinhas e muitas verdades também. Vi muita coisa: as brigas dos garotos, o futebol jogado por eles na rua, o dono da bola levando-a embora porque seu time estava perdendo, vi as boiadas que passavam pela rua, noivas e seus acompanhantes, que desciam no ponto de ônibus, no bar do Coló e iam pela rua São João até à igreja. Ficava muito triste quando passava um cortejo fúnebre levando um caixão de “anjinho”. Eu gostava quando tinha procissão, era muito bonito, todos rezando, velas acesas, o padre Epifânio dando ordens.
Cada mês tinha uma brincadeira diferente, mas o futebol e pegar rabeira de caminhão eram constantes. Ninguém combinava, mas de manhã apareciam todos com os bolsos cheios de bolinhas de gude. Alguns usavam rolimã, para quebrar as bolinhas dos outros. Num outro mês, como num passe de mágica todos apareciam com suas bétias e piões, só o mês de agosto é que eu sabia que iam soltar “papagaio”. O céu ficava cheio, eram de vários tamanhos e formatos, feitos por eles mesmos e, sem cerol. A cola era goma arábica ou feita uma mistura de água e farinha de trigo.
Meu morador foi embora, sem se despedir, tinha pressa de me deixar. Quando frequentava o grupo escolar havia outras casas de madeiras e ele gostava muito de mim. Quantas vezes vinha chorando porque alguns meninos maldosos diziam que a prefeitura ia derrubar todas as casas de tábuas? Ao frequentar o ginásio percebi que mudou um pouco o seu carinho para comigo, só alguns amigos sabiam onde ele morava. Quando começou o científico e o normal percebi que tinha vergonha de mim. O importante era a aparência, não lembrava que o abriguei do frio; do calor; das tempestades que passamos juntos; eu segurando minhas telhas, portas e janelas e ele debaixo da mesa?
Ironia das ironias, fiquei sabendo que mudaram para uma casa, misto de madeira e barro, de chão batido, sem luz elétrica e água encanada, ao lado da casa do seu Atílio. Tinham de economizar para poderem construir a tão sonhada casa de tijolos e aceitaram morar na casa alugada pelo seu Atílio. Aqui tinha luz elétrica, água encanada, piso de madeira, chuveiro “Tiradentes”. Estava tomando banho de caneca. Com certeza não deu seu endereço para ninguém.
Logo vai começar a amanhecer e minhas recordações continuam. Nunca senti medo quando diziam que iam derrubar as casas de tábuas, nem quando enfrentei as tempestades e a explosão do trem da NOB. Nem agora que serei transportada para o sítio, mas um dia fiquei com medo: políticos fanáticos estavam invadindo, destruindo casas e rasgando o retrato de Getúlio Vargas. Meu dono, pai do garoto, pendurou o retrato de Getúlio Vargas na parede da sala, bem de frente para a rua, e falou:- “Quero ver se nesta cidade tem homem com coragem suficiente para vir rasgar este retrato”!! O retrato foi com a mudança, agora.
Que noite! Parece que não acaba. Agora parou um carro, outro carro, mais outro. Deles descem, Dr Neif, familiares, colegas do rapaz, da cidade, de Lavínia e de Guaraçai, formandos normalistas. Estão fazendo serenata para os futuros professores, passam de casa em casa e o grupo vai aumentando. Cantam músicas lindas, maravilhosas e sentimentais. Eu permaneço quieta, chorosa, apenas uma janela, que a taramela quebrou, range, balançada pela brisa do amanhecer.
Alguém diz: a janela está aberta, mas parece que não tem ninguém.
Deve ter mudado. Alguém sabe o novo endereço?

*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.

