Artigo: sexta-feira da Paixão, por Ademar Bispo
Foto: Criada via Chat GPT
O dia amanhece triste, o sol não tem aquele brilho encantador, as andorinhas não fazem a sua revoada, as casas estão em silêncio. Os rádios estão desligados, não se ouve as vozes de Zé Bétio nem de Nhô Mané. Nada de música, nada de cantoria, nada de brigas. As crianças estão proibidas de irem brincar na rua.
O Alto-falante, do Nelson Vital, na rua Rafael Pereira, também está em silêncio. Jesus está morto. As mães fazem o almoço, que consta de peixe, como o bacalhau, a sardinha e outros pescados. Nada de bebidas. Algumas pessoas fazem jejum, outras nem fazem a barba. Sexo!!!! Proibido.
Após o almoço as crianças irão assistir, no cine São Jorge, o filme: Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Filme antigo, preto e branco, mudo, quase caricato, que passa todos os anos. O auge da sexta-feira é a Procissão. Já no finzinho da tarde as pessoas se dirigem à igreja para os preparativos.
O pátio externo da igreja pouco a pouco vai ficando pequeno para o povo que chega. O jardim vai ficando vazio, não haverá “footing”, as moças não desfilarão suas belezas, os rapazes não tentarão conquistar suas escolhidas, os meninos não farão algazarra mexendo com todos.
À frente está o padre Epifânio, atento a todos os detalhes, indo de um lado ao outro, delegando funções, sugerindo, cobrando dos Marianos e das filhas de Maria. Com seu chapéu clerical negro, com sua batina, também negra, abotoada de alto a baixo por trinta e três botões representando a idade de Cristo e mais cinco botões em cada punho que representam as cinco chagas de Cristo, padre Epifânio, com certeza seria escolhido por Federico Fellini para participar de seus filmes.
José de Souza e João Millian estão encarregados, juntamente com outros de carregarem o andor com Cristo morto, dona Minervina orienta as senhoras e Maria Delai faz os preparativos para representar Verônica, a mulher desconhecida que enxugou o rosto de Cristo. Verônica que não consta nas Sagradas Escrituras aparecendo somente no livro apócrifo Atos de Pilatos, mas Dante Allighieri confirma sua existência na Divina Comédia.
Com tudo acertado a Procissão inicia sua caminhada em direção à rua Rafael Pereira, será um percurso longo. Em locais pré determinados as estações são realizadas. O canto ou o grito de lamentação de Verônica é ouvido e nós, garotos ficamos um pouco amedrontados. No Santo Sudário está a face de Cristo, a face Daquele que morreu para nos salvar e que segundo Mateus disse: “aquele que me negar diante dos homens, eu também o negarei diante do Pai, que está no céu”. Pedro O negou, antes do galo cantar Pedro O negou três vezes e assim mesmo recebeu a chave do reino do céu.
Uma passagem que nos leva a um estudo teológico mais profundo, a uma reflexão filosófica onde, de um lado temos uma citação Divina e de outro um comportamento humano. Pedro, humano, negou, para continuar a pregação, tarefa dada por Cristo. Negou como Galileu também negou, para sobreviver e continuar a fazer suas descobertas.
A procissão continua, desce a rua João Domingos de Souza e segue pela rua São João até a chegada à igreja, onde há a dispersão. Os meninos correm para o bar Jardim, vão comer pastel de bacalhau, amanhã irão malhar o Judas.

*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.

