“Será que é normal ver o palhaço do circo chorar?”: Alessandro Farinha fala sobre depressão, fé e superação

“Será que é normal ver o palhaço do circo chorar?”: Alessandro Farinha fala sobre depressão, fé e superação

Alessandro com a esposa Vanessa. Foto: Arquivo Pessoal/Alessandro

Aos 42 anos, o mirandopolense Alessandro Carlos Farinha, hoje residente em Araçatuba, compartilha uma história marcada por superação, trabalho desde a infância e uma luta silenciosa contra a depressão. Casado com Vanessa e pai de três filhos — Lorenzo (14), Yasmin (8) e Luigi (4) — ele fala abertamente sobre o diagnóstico, as recaídas, o impacto na vida profissional e familiar e a importância de buscar ajuda.

Onde nasceu e cresceu?

Nasci e cresci em Mirandópolis. Minha família e eu tivemos uma infância muito pobre. Houve momentos de muita escassez em tudo: roupas, moradia, brinquedos e até alimentos. Estudei a vida toda na escola Noêmia Dias Perotti. Sempre fui dedicado, gostava de participar dos eventos, fiz boas amizades e era considerado pelos professores um dos melhores alunos da sala.

Quando começou a trabalhar?

Comecei muito cedo. Aos 13 anos eu era Mirim, hoje chamado de Jovem Aprendiz, na Farmácia São Paulo, que pertence até hoje ao meu primeiro patrão, Antônio Sérgio Zuim. Trabalhei praticamente a vida toda como balconista de farmácia, mas tentei várias vezes empreender. Tive uma pequena drogaria, um delivery de porções, uma loja de presentes e acessórios e também atuei como terapeuta emocional. Fechei a drogaria por vários fatores e foi difícil reorganizar a vida, mas voltei a trabalhar como balconista. A vida precisava seguir. Depois, voltei a empreender. Nessa época eu já havia sido diagnosticado com depressão, mas não me impactava tanto quanto hoje.

O mirandopolense Alessandro Farinha hoje reside em Araçatuba Foto: Arquivo Pessoal/Alessandro Farinha

Quando percebeu que não estava bem?

Há cerca de 15 anos, quando eu trabalhava na Droga Bella, do meu amigo Vitor. De repente, senti uma vontade incontrolável de chorar. Fui para um local reservado e desabei. Eu não entendia o motivo, e a equipe ficou assustada, porque eu era um dos mais extrovertidos. Depois disso, vieram sintomas físicos: cansaço, arritmia, aperto no peito, dor de cabeça intensa e choro constante. Cheguei a pensar que estava infartando. Após consulta com o Dr. Rodrigo de Carvalho, veio o diagnóstico: início de depressão. Ele me tranquilizou, receitou medicação e orientou sobre vida social saudável, exercícios, meditação e alimentação adequada. Segui tudo, os sintomas amenizaram, busquei força espiritual e consegui ficar sem medicamento por um tempo. Achei que estava curado. Anos depois, os sintomas voltaram, até mais fortes. A depressão havia avançado. Houve troca de medicação e acompanhamento psicológico. O vazio interno era grande. Eu nunca escondi a doença, mas muitos estranhavam, porque eu era o “tio maluco da festa”, brincalhão, cantor, animado. Sozinho eu pensava: “Será que é normal ver o palhaço do circo chorar?”

Que tipo de tratamento você buscou?

Sempre confiei no Dr. Rodrigo. Testamos vários medicamentos. Fiz também um curso de Terapia Emocional para me aprofundar no assunto. Ajudei muitas pessoas, inclusive em casos de tentativa de suicídio, que graças a Deus não se concretizaram. Mas fazer terapia em si mesmo é mais complexo, e tive poucos resultados. O ápice da minha depressão foi há cerca de sete meses. Eu estava fora de controle: pânico, ansiedade, choro, baixa autoestima, medo e pensamentos sobre o meu próprio fim. Procurei vários profissionais, inclusive o mesmo médico do início. Iniciei terapia com psicanalista e ouvi outras opiniões. A orientação foi clara: medicação e afastamento do trabalho para me tratar.

Quais dificuldades ainda enfrenta?

Hoje me sinto estável, mas alguns sintomas ainda me acompanham: falhas na coordenação das pernas, tremores, irritabilidade, dores de cabeça e tristeza. Isso me impede de trabalhar como balconista. Além da depressão, me preocupo muito com minha família. Tenho três filhos, e o mais velho é autista, precisando de mais atenção. Sou o provedor da casa, e a questão financeira se tornou um grande problema. Estou recebendo um salário do INSS, que praticamente cobre o aluguel. Para seguir em frente, precisei abrir mão da vaidade e, de forma humilde, pedir ajuda — seja alimentos ou apoio financeiro. O que me fortalece é ver minha família bem e meus filhos saudáveis.

Pai de três filhos, sendo que o mais velho é autista e necessita de mais atenção. Foto: Arquivo Pessoal/Alessandro Farinha

Vocês ainda precisam de ajuda?

No início da crise, há sete meses, a ajuda era constante. Mas todos têm suas obrigações, e com o tempo ela foi diminuindo. Tentei voltar ao trabalho, mas meu corpo não suportou. Temos poucos conhecidos em Araçatuba, mas os que temos são verdadeiros anjos. Qualquer doação ou valor é bem-vindo. Meu contato é (18) 99137-1233. O que o coração puder doar, nós aceitamos.

Quer deixar uma mensagem?

Se você se identifica com qualquer sintoma parecido com os meus, converse com alguém. Não sinta vergonha, não se feche diante de algo tão sério. Procure um médico, siga as orientações e confie no seu potencial. Todos nós temos capacidade de sair desse vazio. Confie no seu médico, confie em você e, principalmente, confie em Deus, que nunca nos abandona.

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