Clube Atlético Mirandópolis, por Ademar Bispo*

Clube Atlético Mirandópolis, por Ademar Bispo*

Foto: Google Maps

Andando pelas ruas de Mirandópolis passo em frente ao CAM. A imaginação, a memória e a recordação trazem a saudade. Fico olhando…ali aprendi a nadar, a jogar futebol de salão (hoje chamado de futsal) e frequentei as matines dançantes nos domingos. Frequentar estas tardes, para mim, era só olhar, a timidez e o fato de não saber dançar, nem um bolero…dois para lá, um para cá, deixava-me imóvel, só olhando.  Passei toda a minha adolescência e grande parte da juventude olhando os bailes com orquestras famosas, e as noites de carnavais. Tomar um Cuba Libre, nem pensar, não tinha dinheiro para uma Coca-Cola.

Há dois rapazes na portaria, não os conheço, penso em pedir para dar uma olhadinha no interior do clube. Eles não me conhecem, temo que não deixarão. 

Meus pais não eram sócios, mas frequentei diariamente o clube, disputei campeonatos, até o dia que seu Zé me abordou e disse-me que não poderia mais entrar, pois não era sócio. Mesmo assim entrava escondido, quando ele estava jogando truco ou bocha, e saia de fininho quando ele aparecia. Os amigos nunca souberam. Não disputei mais os campeonatos, dizia que estava machucado.

Proibir-me de entrar no CAM era como tirar-me o ar, a água, o alimento. Meu pai fez sacrifícios, não sei como conseguiu os dez mil cruzeiros para a “joia” que o Faria não dispensou, e entrou de sócio. Um dos melhores presentes que recebi até hoje. O meu pai!!!! Como gostaria de ser, para minhas filhas, pelo menos a metade que foi para mim.

Os rapazes da portaria não sabem a quantidade de vezes que desci aquela rampa, com o uniforme do Colégio ou da Seleção da cidade. O passado se faz presente e ouço o barulho da torcida, as fanfarras do Colégio e da Escola do Comércio. Aguardando a hora de entrar na quadra, jogando pelo Colégio, um frio corre pela barriga, ao saber que terei de marcar o Makoto, japonês bom de bola, malandro, esperto e….chorão, ou então anular o Cabeção, dono de um chute violentíssimo, mas adversário leal.

Quando defendia a Seleção da cidade não sentia calafrios, pois eles estavam do meu lado e ainda tinha o Gerson, o Nata, o Fenelon e o Lala. Tínhamos uma excelente Seleção. Uma Seleção que se dava ao luxo de não convocar o brilhante Kaneo. Uma Seleção que lembrava do Gato, mas não lembrava do Padre, que o deixa inconformado até hoje.

A quadra está coberta. Quantas vezes a secamos com rodos e panos de chão, as vezes até jogando álcool nas poças d’água e colocando fogo para seca-las. Sinto uma nostalgia enorme ao relembrar fatos que ali aconteceram: a morte do meu grande amigo Careca, a quase agressão sofrida pelo Emílio Colnago, do time da Casa da Lavoura, que só não aconteceu porque o amigo Carabina interferiu, a briga entre os jogadores do Star do Jorge Sekino e a equipe da Esteves Irmãos.

Novamente seu Zé me impede de entrar no clube, agora porque tenho 18 anos e não posso mais ser dependente, tenho de ser sócio individual. Não temos condições de pagar duas mensalidades. Surge a salvação na figura de meu tio Bento Guilherme que, de mudança para São Paulo, transfere seu título, de sócio fundador, para mim, não preciso pagar nem a mensalidade enquanto o Clube não devolver o empréstimo feito por ele.

O pensamento permanece carregado com os sons e imagens do passado. Parece-me ouvir o apito dos juízes: Bananeira, Milton, Fernando Miron e Aziz. Na arquibancada de madeira, no alto, vejo meus pais, que não perdiam nenhum jogo. Não havia Jornal Nacional, não havia novelas, não havia televisão. Logo abaixo, a família Mustafa: Doutor Neif, Dona Antiniska, Dona Rosa, seu Vasco e os jovens Reinaldo e Regina, família admirada e muito querida por mim. Na arquibancada de cimento, bem no alto, ao lado da Clarinda Justi, revejo a Marlene, minha primeira namorada.

Um carro passa, buzina e me faz voltar ao presente. Alguém grita, acena e me chama. Eu respondo, aceno de volta, mas…quem é? Não reconheci.

*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.

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