Artigo: Respeitável público, o circo chegou em Mirandópolis, por Ademar Bispo

Artigo: Respeitável público, o circo chegou em Mirandópolis, por Ademar Bispo

Foto: Criada via Chat GPT

O circo estava sendo montado no alto da rua do Comércio, onde hoje é o almoxarifado municipal. Chegaram cedinho e a bagunça era geral, trailers, caminhões, jaulas e muitos funcionários fincando as estacas para erguerem a lona. A molecada em volta, curiosa, alguns tinham faltado à aula e outros nem frequentavam a escola.  Artistas, com cara de sono, saiam à janela dos reboques e ficavam vendo a movimentação. 

Os adultos, alguns indo ao trabalho e outros desocupados, comentavam sobre a vantagem e desvantagem da chegada do circo. Havia aqueles que achavam que iam levar todo o dinheiro da cidade e aqueles que defendiam o circo, pois além da diversão que proporcionaria, iriam gastar no comércio: açougue, padaria, lojas e armazéns. 

Volto rápido para casa, ouvi dizer que alguns meninos vão pegar animais para venderem ao dono do circo, para alimentarem o leão, tenho de prender meu cachorro Tarzan e meu gato Patoto. Peço dinheiro à minha mãe para ir ao circo.

“Nós não temos dinheiro nem para comer e você quer ir ao circo? Seu pai tá lá no bar, sem emprego, só bebendo e jogando. Eu fico costurando até meia noite, e não fique indo lá, porque eles podem te levar embora”.

Levar embora eu não sei, sei que um dia uma trapezista ficou em Mirandópolis. Um fazendeiro, casado, botou casa para ela lá no “cortiço” do Nino Veronez. Pego um saco de estopa e saio à cata de osso, alumínio e cobre para vender ao ferro-velho e conseguir algum dinheiro.

Sexta-feira é a estreia, de manhã tem o desfile. Vão pelas ruas da cidade. Rojões, o dono do circo fazendo a propaganda no alto-falante, os palhaços vão à frente, mexendo com todos. A domadora vem montada no elefante, em seguida os malabarista, os trapezistas, as jaulas com os animais que são puxadas por carros. Os meninos acompanham fazendo a maior algazarra. O palhaço o que é? É ladrão de “muié”. As pessoas saem à calçada para ver. Só quem não está muito contente é o senhor João Ferratone. O cinema vai ficar “às moscas” e olhe que sexta-feira é sessão do troco.

A atração da estreia são as irmãs Zumbano. Elas vão lutar. Estão no alto de um caminhão. Uma é morena clara, bonita, cabelos curtos, corpo perfeito, nada de músculos como as de agora. A outra é grandona, gorda, cabelos compridos usados como “rabo de égua”. Vestem um roupão, vermelho uma e azul a outra.

O circo está todo iluminado, as pessoas vão chegando, comprando pipoca e amendoim torrado. Há moças do circo vestidas com saias curtinhas, com tabuleiros de pirulitos e balas. Eu consegui o dinheiro, deu até para comprar “martelinho”, conhecido como quebra-queixo. Fico na arquibancada, junto com o Silvio Tavares, o Alcides Espirito Santo, o Sérgio Zuin. Nas cadeiras, pertinho do picadeiro estão os Abuds, os Eids e os Junqueiras. O prefeito tem um camarote especial para os familiares. Nos divertimos com os palhaços, ficamos tenso com os trapezistas e admirados com as mágicas e com a coragem da domadora. O barulho do globo da morte é ensurdecedor, tapo os ouvidos, as vezes fecho os olhos. Parece que as motos vão trombar.  Hora da luta. As irmãs Zumbano entram.  A morena de maiô vermelho e a outra de maiô azul. 

Iniciam a luta, se estudam, se agarram, gritam, se afastam. Voltam a se pegar, caem, rolam. Não sei não, não sei não se não treinavam toda noite no quarto. Não sei se eram irmãs Zumbanos mesmo. Terminada a luta. A grandona ganhou.  Lançam um desafio: lutarão com qualquer homem de Mirandópolis.

Silêncio, silêncio total. Ninguém fala nada.  Elas provocam: os homens estão com medo? Mirandópolis não tem homem? Alguém ergue a mão, os olhares se viram para ele. O silêncio é quebrado por um “zum zum zum” que vai aumentando até estourar em palmas e gritos. É um jovem, pouco mais de 20 anos de idade, recém chegado a Mirandópolis.

Ele aceita lutar no dia seguinte com qualquer uma delas, será feito um sorteio. Mohamed Mustafa Zogbi salvou a honra dos homens de Mirandópolis.

Tenho de assistir a luta, mas não tenho dinheiro. Vou pedir a meu pai, sei que se ele tiver ele vai dar e não fará sermão como minha mãe. Ele não tem, só tem uns trocados, mas diz que vai jogar no bicho e se ganhar dá-me o dinheiro. Pede-me para dar um palpite, dizer que bichos vão dar porque ele vai fazer um “passe”.  Eu digo que vai dar macaco e galo.

Dia seguinte, dia da luta, à tardezinha meu pai dá-me o dinheiro para o circo. Muitos anos depois me confessaria que não jogou nos meus bichos, não acreditou no meu palpite. E o palpite estava certo. Pediu o dinheiro emprestado para eu poder ir assistir à luta.

Nem prestei atenção nas outras atrações, só estava esperando a luta. Minha imaginação doidejava, criava mil sacanagens e me via lutando com a morena. Os lutadores entram: Mohamed de maiô preto, a morena de vermelho e a grandona de azul. A Morena é a sorteada, são estabelecidas as regras: não pode morder, puxar o cabelo.

Inicia-se a luta. Mohamed parte para cima da morena, abraça-a, derruba, fica em cima dela e comprime-a de encontro ao solo.  Ela pede água, acabou a luta. Eu não acredito. Ficaria lutando quatro, cinco horas com ela. O mediador ergue o braço de Mohamed, ela protesta, questiona, briga, diz que não deu os tapinhas para encerrar a luta. A platéia grita, vaia, não sei se vaia a morena, se vaia o término da luta. Como dizia Nelson Rodrigues: o brasileiro vaia até minuto de silêncio”.

Mohamed pega o microfone e, num português arrastado, com forte sotaque árabe, diz: amanhã eu lutar com os duas de uma só vez. A plateia vai ao delírio, as vaias se transformam em palmas e gritos.

Não vi a luta, remexi o lixão da cidade, mas não consegui ferro, alumínio, cobre e osso suficiente para comprar o ingresso e não tinha coragem de “varar” por baixo do pano como o Silvio Tavares fazia.

Observação: no dia 18/07/09 estive com o “Mamede”, depois de 55 anos fiquei sabendo o resultado da luta.

*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.

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