Artigo: álbum de figurinhas, por Ademar Bispo
Foto: Criada via Chat GPT
Eu estava no quintal de casa, brincando sozinho com minhas bolinhas de gude, quando o Cido e o Silvio chegaram apressados, gritando: Demá, Demá, cadê o álbum? Cadê?
Pego de surpresa, demorei para entender o que queriam. Então perguntei: Vocês conseguiram a figurinha?
Éramos sócios em um álbum de figurinhas de times e jogadores de futebol, e ele ficava na minha casa, já que eu não tinha irmãos para mexer. Todo o dinheiro que conseguíamos era usado para comprar aquelas balas horríveis, nas quais as figurinhas vinham enroladas. O Silvio engraxava sapatos; eu e o Cido vendíamos osso, alumínio, cobre e ferro. Foram muitas as vezes que revirei o lixão da cidade à procura desses metais. Nunca nenhum de nós reclamou se alguém colocava mais ou menos dinheiro para comprar as figurinhas.
As repetidas eram usadas para troca com outros colecionadores ou para jogar “bafo”. Uma figurinha carimbada valia por quatro ou cinco das comuns.
Não, não conseguimos a figurinha, disse o Silvio. Mas o caminhão das balas está lá na Cantina, completou o Cido.
Faltava apenas uma figurinha para completar o álbum. Era difícil, carimbada, ninguém tinha. Decidimos ir negociar com o homem do caminhão para ver se ele aceitava o álbum em troca de algum prêmio.
Peguei o álbum e fomos até a Cantina 1004, em frente às Casas Pernambucanas. O Silvio, mais atirado, foi logo pedindo ao homem do caminhão que trocasse o nosso álbum. Eu e o Cido, mais tímidos, aguardávamos em silêncio, ansiosos pela resposta. O homem não hesitou: disse que não poderia trocar. Se não estava completo, não tínhamos direito a prêmio algum.
Então eu e o Cido nos aproximamos, pedindo, suplicando, até um pouco revoltados. Dizíamos que já não saíam mais figurinhas, que aquela não existia, que nunca completaríamos o álbum. O homem pegou o álbum, folheou sem interesse e ia devolvê-lo, quando olhou em nossos olhos. Resolveu, então, examinar página por página. Virou-se para o balconista da Cantina e disse: Cruz, dê uma bola aos garotos.
Foi um grito só de alegria. Os frequentadores da Cantina se assustaram, e os passantes na rua não entendiam o que acontecia. Com a bola nas mãos, descemos correndo a rua Floresta, rindo e gritando, em direção ao nosso QG: a rua São João.
Agora tínhamos uma bola — de capotão, de válvula. Não era a oficial número cinco, mas era número quatro, ideal para nós. Não dependeríamos mais da bola do Zé Antônio Rodrigues nem da bola do Dedé Pardo.
Ficou acertado que a bola também ficaria na minha casa e que só jogaríamos com ela quando pelo menos dois dos sócios estivessem presentes. Nunca houve discussão: uma sociedade perfeita.
A bola durou anos. O Cido passava sebo no couro e nas costuras para evitar que ressecassem. Quando um gomo descosturava, nós mesmos fazíamos o reparo, usando duas agulhas de costurar saco — e ficava perfeita. Ela envelheceu, o couro começou a se soltar, mas só paramos de jogar quando já éramos jovens e a rua foi asfaltada.
Éramos apenas três garotos. Três garotos sócios em um álbum. Três garotos sócios em uma amizade eterna.


