Artigo: O sapo e a alma penada, por Ademar Bispo
Texto: Ademar Bispo / Foto: Criada via Chat GPT
No final da década de quarenta, Mirandópolis não tinha energia elétrica. A iluminação noturna era feita por lamparinas ou lampiões. Aproveitávamos ao máximo a luz do dia para brincar, porque depois era banho, janta e cama. Naquele dia, porém, eu estava eufórico. Ainda com o sol se pondo, já tinha tomado banho e jantado, e corria para dentro e para fora de casa, até ser repreendido por minha mãe.
Sossega, menino! Vai cair, vai se sujar e não iremos à casa do seu Manézinho.
E não era uma noite qualquer. Iríamos sair da rotina: visitaríamos a casa do seu Manézinho Foieiro para assistir a uma sessão espírita. Minha mãe e outras mulheres da rua São João haviam combinado de ir por curiosidade e também para mudar um pouco a rotina noturna. Assim que anoiteceu, as outras mães chegaram com seus filhos, cada uma com uma lamparina acesa, e saímos.
Descemos a rua São João, passamos na casa da dona Babi, que nos esperava com as filhas, e seguimos por um terreno baldio, início de um pasto, onde ficava a casa para onde íamos. Em fila indiana, por uma trilha estreita, caminhávamos: as mulheres conversando e nós, crianças, correndo, entrando no mato mais alto, assustando uns aos outros.
De repente, dei um grito: Pisei num sapo!
Minha mãe me puxou pela orelha: Fica aqui na trilha! Onde tem sapo, tem cobra.
Emburrado, quase chorando e com raiva das outras crianças que riam, a brincadeira acabou para mim.
Chegamos à casa — de madeira, com assoalho alto e uma escada para subir. Já havia algumas pessoas. Entramos e nos sentamos nas cadeiras reservadas aos visitantes, encostadas nas paredes ao redor da sala. Entre elas e uma mesa central havia outra fileira de cadeiras, ocupadas pelos adeptos da doutrina kardecista. Ao redor da mesa, de mãos dadas, estavam seu Manézinho e mais algumas pessoas.
Ele iniciou os trabalhos com uma oração, e eu comecei a sentir medo. Acomodei-me melhor na cadeira, apoiando os pés no travessão, pois era pequeno e não alcançava o chão.
Logo, algumas pessoas começaram a murmurar, emitir sons estranhos, fazer pequenos movimentos com o corpo. Seu Manézinho repetia: Venha… venha.
O medo aumentava. E, de repente, senti um cheiro horrível, um fedor muito forte. Pensei comigo: Bem que meu pai diz que o cheiro de defunto é o pior que existe… Deve ser algum espírito querendo entrar em contato.
Uma mulher deu um grito. Eu me assustei e quase caí da cadeira.
Ao me ajeitar novamente, percebi algo no travessão da cadeira e nos meus sapatos. Era sujeira. Foi então que entendi: aquele cheiro nauseante vinha dos meus pés. Eu não tinha pisado em um sapo… tinha pisado em um monte de bosta.
Levantei-me e fui para o outro lado da sala. Mas, por onde passava, deixava marcas no assoalho. Sentei-me em outra cadeira, mas logo começaram as reclamações. As pessoas tampavam o nariz, murmuravam. Troquei de lugar novamente, mas o cheiro só aumentava. A sala virou um burburinho, e eu, morrendo de medo dos espíritos, sem saber o que fazer.
Seu Manézinho precisou interromper a sessão. Ninguém suportava o cheiro. Ele pediu que todos fossem para o quintal enquanto limpavam o assoalho.
Corri para fora e tentei limpar os pés na grama. Foi então que uma mulher gritou: Foi esse menino que pisou na bosta! Foi ele que sujou tudo!
Assustado, escondi-me atrás de minha mãe, repetindo: Mãe, vamos embora… vamos embora.
Seu Manézinho apareceu na porta e disse: Pessoal, vamos remarcar a sessão para outro dia. Não estamos conseguindo limpar o assoalho e nem acabar com o cheiro.
Segurei a mão da minha mãe e comecei a puxá-la. Ela não entendia nada, mas fomos embora sem esperar os outros. Ainda ouvi um dos meninos gritar: Não vai pisar no sapo!
E a mulher insistindo: Foi aquele menino! Foi aquele menino!
Naquela noite, não consegui dormir. Qualquer barulho me fazia pensar que eram os espíritos vindo me castigar. Por muitos anos, só eu, os espíritos… e aquela mulher sabíamos quem tinha causado toda aquela fedentina.

*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.

