Seu Alvino, 100 anos: uma vida que se tornou símbolo de dignidade, trabalho e amor em Mirandópolis
Foto: Gabriel Leite
Nascido em 15 de abril de 1926, em Brotas, na Bahia, Alvino Rodrigues de Araújo conheceu ainda na infância o peso da responsabilidade. Aos seis anos, já ajudava a carregar pedras na construção de um açude, em meio à seca e às dificuldades que marcaram sua origem. Calçou o primeiro sapato apenas aos 18 anos. Pouco tempo depois, aos 23 anos, deixou para trás a terra natal e seguiu rumo ao interior de São Paulo, em busca de oportunidades. Foi no bairro Terceira Aliança, em Mirandópolis, que construiu sua história e formou sua família. Ao lado de Dona Edite (In Memoriam), viveu quase sete décadas de casamento, sustentadas pelo respeito, companheirismo e amor. Dessa união nasceram seis filhos, que deram continuidade a uma família que hoje soma netos e bisnetos, todos herdeiros de um legado construído com esforço e honestidade.
O que seus pais faziam naquela época?
Meus pais eram trabalhadores simples. Viviam da roça, sempre indo atrás de serviço onde aparecesse. A gente vivia mudando de lugar, acompanhando o trabalho que surgia. Meu pai e minha mãe faziam de tudo um pouco para garantir o sustento da família.
Quando começou a trabalhar?
Comecei a trabalhar muito cedo, com seis anos de idade. Naquela época, ajudei na construção de um açude perto de Macaúba, carregando pedras. Eu e meus irmãos íamos com carro de boi, cada um ajudando do jeito que podia.


Quando veio para o interior?
Vim para o interior de São Paulo com 23 anos, chegando em 1949. Saí da Bahia em busca de uma vida melhor. A viagem foi longa, vinha a pé, junto com outras pessoas, em grupos, todo mundo atrás de trabalho. Muita gente veio assim naquela época, famílias inteiras tentando recomeçar a vida, saia a pé, pegava carona quando conseguia, e assim depois de muitas semanas chegávamos no destino. Eu vim com um dos meus irmãos. Muitos vinham em grupos, famílias inteiras, mas aqui para a Terceira Aliança viemos só nós dois mesmo.
Como era a Aliança naquela época?
A Terceira Aliança era bem movimentada. Tinha Cooperativa, Correios, mercearias, bastante coisa funcionando. No sábado então, enchia de gente. O pessoal se reunia em um bar grande, com mesas quadradas, ficavam ali jogando, conversando, bebendo e se divertindo. Tinha muita família japonesa por aqui, era a maioria. A gente quase só via japoneses trabalhando e vivendo na região. Era um lugar com bastante movimento, bem diferente de quando depois foi ficando mais parado.

Qual foi sua primeira oportunidade de trabalho?
Consegui um serviço para descascar e debulhar milho, para encher sacos que depois iam para venda. Não era fácil. Tinha que descascar no machado, no cepo, e depois debulhar tudo, deixando só o sabugo. O pagamento era por produção, e precisava fazer muitos sacos para conseguir ganhar alguma coisa. Foi muito sofrido, mas consegui vencer na vida trabalhando!
Sempre trabalhou com isso?
Não, não foi só com isso não. Comecei no milho porque era a oportunidade que apareceu na época, mas depois fui fazendo de tudo um pouco. Trabalhei em serviços gerais, sempre pegando o que aparecia. Trabalhei muitos anos com as famílias japonesas também, fazendo vários tipos de serviço. Quando chovia, apareciam mais trabalhos, aí a gente ia aproveitando. Nunca fiquei parado, sempre fui atrás do serviço para garantir o sustento.
Quando o senhor decidiu formar uma família?
Quando vi que além do trabalho, eu queria algo a mais para minha vida. Até então, eu não tinha nada certo, até pensava em voltar para a Bahia para arrumar uma moça para casar, já estava até com a mala pronta. Mas quando vi a Edite, na igreja na Segunda Aliança, foi diferente, me chamou a atenção na hora. Vi ela uma vez e já me chamou a atenção. Foi como amor à primeira vista. Aquilo não saiu da minha cabeça, tanto que voltei outro dia só para ver se encontrava ela de novo. Quando encontrei, pedi para um amigo chamar ela para conversar. No começo ela não quis ir, mas depois aceitou. A gente sentou numa mesa, tomou refrigerante com as irmãs dela e conversou um pouco. Não demorou muito e eu já falei que queria casar com ela. Foi uma união de respeito, companheirismo e carinho. A gente construiu nossa vida juntos, enfrentando tudo lado a lado.

Quando vocês se casaram?
Nós nos casamos em 1955. Quando fui pedir a mão dela, meu sogro disse que não tinha condições de pagar a festa. Aí eu falei que podia deixar por minha conta, que eu mesmo pagaria tudo, que ele não precisaria gastar nada. Eu já tinha um dinheiro guardado, que seria o que usaria para voltar para a Bahia, mas decidi usar tudo no casamento. Foi assim que a gente começou a nossa vida juntos, com muita vontade de dar certo.
Qual o segredo para chegar aos 100 anos?
Olha, não tem segredo não… é a vida que a gente leva. Hoje eu vejo muito jovem reclamando, falando que está difícil, mas não sabe o que é dificuldade. Naquele tempo não tinha escolha, a gente fazia o que precisava para sobreviver. Hoje tem mais oportunidade, mas muita gente não valoriza. Acho que o segredo é esse: trabalhar, ter fé em Deus, não reclamar e não desistir, mesmo quando as coisas ficam difíceis.

