“Nunca é tarde para recomeçar e aprender”, ressalta a nutricionista Gabriela Mori

“Nunca é tarde para recomeçar e aprender”, ressalta a nutricionista Gabriela Mori

Foto: Divulgação

A trajetória de Gabriela Braga Mori Takagi é marcada por mudanças, desafios e recomeços. Nascida no Pará, criada no interior paulista e com passagem pelo Japão ainda na adolescência, ela construiu uma história de coragem e adaptação. Em Mirandópolis há cerca de 20 anos, Gabriela decidiu retomar os estudos já na fase adulta e, aos 37 anos, formou-se em Nutrição — área pela qual se apaixonou e onde encontrou propósito. Hoje, atua com foco em comportamento alimentar e qualidade de vida, defendendo uma visão que vai além da dieta: cuidar da relação com a comida é, antes de tudo, cuidar da vida.

Você tem uma trajetória muito rica e diferente. Como foi sua infância e juventude?

Minha história começa no Pará, onde nasci, mas minha infância foi em Lindóia. Meus pais trabalhavam na construção civil, ligados à Camargo Corrêa, então passamos por alguns lugares. Eles se separaram quando eu ainda era muito pequena, antes dos três anos, e fui criada pela minha mãe, junto com minhas três irmãs — eu sou a caçula. Minha mãe sempre foi muito dedicada à educação, é professora e chegou a ocupar cargos importantes como supervisora de ensino. Isso, mesmo que eu não percebesse na época, acabou sendo uma base muito forte na minha vida. Cresci em uma cidade pequena, com uma rotina simples, e fui estudar em Amparo, fazendo ETEC. Pegava ônibus todos os dias, o que já exigia disciplina desde cedo.

E como surgiu a oportunidade de ir para o Japão tão jovem?

Foi algo inesperado. Minhas irmãs já estavam lá trabalhando, e eu fui inicialmente para visitar. Mas acabei ficando. Eu tinha 16, 17 anos… era muito nova. Comecei a trabalhar em uma empresa de peças mecânicas. Foi uma experiência muito intensa. Precisei amadurecer rápido, aprender a língua, lidar com uma cultura completamente diferente. Aquilo me deu uma visão de mundo muito grande, mas também me colocou em um ritmo de vida focado no trabalho, não no estudo. Voltei ao Brasil depois de um ano, mas logo retornei ao Japão com um objetivo financeiro. Eu queria conquistar coisas materiais, como comprar uma moto, então foquei em trabalhar e juntar dinheiro.

Gabriela no Japão. Foto: Arquivo Pessoal / Gabriela Mori

Em que momento o estudo voltou a fazer sentido na sua vida?

Demorou um pouco. Naquela fase, estudar não era prioridade. Eu pensava mais em trabalhar, me sustentar. Mas sempre existiu uma curiosidade dentro de mim. Por volta dos 19 anos, comecei a pensar em profissões. Cheguei a considerar psicologia, direito, publicidade… mas nada me chamava de verdade. Até que encontrei, em um guia do estudante, a naturologia aplicada. Aquilo me encantou, porque envolvia uma visão mais natural da saúde. Eu até fiz contas de quanto precisaria para estudar, mas a vida foi tomando outros rumos. Conheci meu esposo, Carlos, ainda nessa fase, e depois de um tempo decidi voltar ao Brasil definitivamente.

Como foi a decisão de vir para Mirandópolis?

Foi uma escolha de vida. Depois que retomamos o contato, eu e meu esposo decidimos ficar juntos. Namoramos por alguns meses e eu vim para Mirandópolis em 2005. Aqui comecei uma nova fase. Cheguei a iniciar faculdade — passei em Medicina Veterinária e também em Administração — mas acabei trancando. Vieram outras prioridades: família, trabalho, maternidade. Trabalhei com meu esposo, ajudei na empresa da família, fiz de tudo um pouco. Foi um período de construção, mas longe da vida acadêmica.

Gabriela com o marido e o filho. Foto: Arquivo Pessoal / Gabriela Mori

E o que fez você retomar o sonho de estudar?

Foi algo muito natural e, ao mesmo tempo, transformador. Sempre gostei de ler, mas não sabia o quanto gostava de estudar. Um ponto importante foi a influência de um tio, que tinha uma visão mais naturalista. Ele lia muito sobre saúde, alimentação, nutrição. Aquilo despertou algo em mim. Comecei a me interessar mais, testar coisas, estudar por conta própria. Quando descobri a nutrição com um olhar mais profundo — especialmente a nutrição molecular e a fitoterapia — senti que aquilo fazia sentido para mim. Era como resgatar aquele interesse antigo pela naturologia.

Como foi voltar a estudar já adulta, com responsabilidades?

Foi desafiador, mas também libertador. Em 2017, consegui uma bolsa de 100% pelo Enem e comecei a faculdade. Eu tinha muitos medos: será que vou dar conta? Será que é tarde? Mas, quando comecei, me encontrei completamente. Eu amava estudar. Era uma das mais velhas da sala, mas isso nunca foi um problema. Pelo contrário, eu tinha mais clareza do que queria. Conciliar tudo não foi fácil — família, trabalho, estudos — mas foi uma fase muito bonita. Tanto que fui oradora da turma na formatura. Foi um momento de realização muito grande.

Hoje você trabalha com uma abordagem diferente da nutrição tradicional. Como é isso?

Eu percebi, ainda na faculdade, que a nutrição não pode ser só prescrição. O ser humano não é matemático. Não adianta só falar o que comer. Hoje trabalho muito com comportamento alimentar. Entender a relação da pessoa com a comida, sua história, emoções, rotina. Muitas vezes, a comida é um escape emocional, e isso precisa ser olhado com cuidado. A pergunta não é só “o que você come?”, mas “por que você come assim?”. E mais: a que custo você está tentando seguir uma dieta? Vale a pena prejudicar sua saúde mental? Minha abordagem é ajudar a pessoa a construir uma relação mais saudável com a alimentação, com mais consciência e menos culpa.

Gabriela atende em seu consultório localizado na rua João Domingues de Souza, nº 297 – Centro de Mirandópolis. Foto: Divulgação

Você também tem um projeto social em mente. Pode falar sobre isso?

Sim, é algo que quero muito tirar do papel. A ideia é começar pelas escolas, trabalhando principalmente com crianças e adolescentes. Hoje vemos muitos problemas relacionados à alimentação e à saúde emocional nessa fase. Redes sociais, comparações, cobranças… tudo isso influencia. Quero levar informação de forma acessível, trabalhar hábitos, presença na alimentação, reduzir o uso de telas durante as refeições, resgatar a conexão com o alimento. E não só com os jovens — envolver as famílias também. Porque tudo é uma rede. A ideia é realmente fazer a diferença na vida das pessoas.

Depois de tudo que viveu, qual mensagem você deixa para quem pensa em recomeçar?

Nunca é tarde. Essa ideia de que existe uma idade certa para mudar é uma ilusão. Já atendi pessoas de 30 anos achando que estavam atrasadas — imagina. A gente precisa entender que tudo é processo. E ninguém faz nada sozinho. Eu só consegui porque tive apoio — da minha família, professores, pessoas que acreditaram em mim. Buscar conhecimento, se aprimorar, se conectar com aquilo que faz sentido… isso transforma. Mais do que um diploma, é sobre evolução. E, no fim, cuidar da alimentação é cuidar da vida. Não é só sobre o prato, é sobre como você vive.

SERVIÇO

  • Nutricionista: Gabriela Mori (abordagem comportamental e integrativa com mindful eating)
  • Consultório: Rua João Domingues de Souza, nº 297 – Centro de Mirandópolis
  • Agendamento: (18) 99131-7621
  • Instagram: @gabrielamorinutri
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