Artigo: Cinco minutos de fama
Foto: Criada via Chat GPT
Era o ano de 1964. Sentado na pequena varanda da casa dos meus pais, pensava no que iria fazer da minha vida. Estudava o científico com o objetivo de entrar na Academia Militar das Agulhas Negras. Ser militar era um dos meus sonhos. Naquela época, o militar do Exército era sinônimo de honradez, bravura e patriotismo. Sonhava, também, em ser médico ou jogador de futebol.
Estava quase cochilando quando um carro parou em frente à minha casa. Um Aero Willys, rabo de peixe, e dele desceram seu Juventino, técnico do Guaraçaí, e seu filho, o Corote, quarto zagueiro, ídolo dos guaraçaienses. Disseram que tinham vindo me convidar para jogar pelo Guaraçaí na disputa do Campeonato Paulista da Terceira Divisão de profissionais. Já tinham conversado com o Cabeção.
Fizeram a proposta e pediram para que eu fosse com eles até Guaraçaí, enquanto a analisava. Vinte cruzeiros por partida, transporte, refeições e pernoite na cidade, porque, nas vésperas dos jogos, teríamos concentração. Receberia também o famoso “bicho” por vitória e empate.
Paramos na praça da cidade. Iríamos até o fotógrafo para tirar uma foto para o contrato da Federação. Três garotos, engraxates, ficaram nos olhando. Então, um deles disse para os outros: “Aquele é o Bispo, vai jogar pra nós.” Aproximou-se e, com certa intimidade, foi dizendo: “Oi, Bispo, tudo bem?”
Três senhores que estavam sentados em um banco da praça também fizeram um comentário entre eles: “Conseguiram trazer o Bispo, dizem que o Cabeção também vem.” Seguimos para o estádio. Estava havendo treino.
Meus amigos, imagino o que sentem esses jogadores quando são recebidos por dirigentes, imprensa e torcidas. Fui apresentado a todos, vieram me cumprimentar. Arrumaram uma chuteira, meias e calção, e fui convidado a participar do bate-bola. Eu estava tímido e com vergonha. Não me lembro dos jogadores, a maioria era de outras cidades. Lembro do Hepacaré, de Lorena, loiro, alto, bom de bola. Até o Messias, moreninho, gago, de Lavínia, estava fazendo teste. Deixei o treino e segui para a estação para pegar a Litorina.
Ao chegar em casa, havia uma comissão de recepção: João Milian, José de Souza, Jorge Cury e Dr. Jorge. Disseram: “Viemos comunicá-lo de que, a partir de hoje, você é profissional. Aqui está o contrato.” Mirandópolis iria disputar a Terceira Divisão de Profissionais da Federação Paulista de Futebol.

