Mãe de coragem: a força de Mônica Nagamatsu, que transforma desafios em amor todos os dias
Foto: Eduardo Mustafa / Arte Juliano Honda
Pela primeira vez, o Brasil tem um retrato oficial sobre o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Dados preliminares do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, apontam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de autismo — o equivalente a 1,2% da população com dois anos ou mais. Entre crianças de 5 a 9 anos, o número chama ainda mais atenção: 1 em cada 38 apresenta o transtorno. Um outro ponto que chamou atenção foi durante o show da cantora Shakira, no Brasil, onde ela destacou a rotina de milhões de mães solo no país. “São mais de 20 milhões de mulheres que lutam todos os dias para sustentar suas famílias”, afirmou.
Esses dados encontram eco em histórias reais, como a de Mônica Akiko Nagamatsu, moradora de Mirandópolis e mãe da Myla, de 22 anos, diagnosticada com autismo não verbal.
A trajetória de Mônica é marcada por desafios, mas também por resiliência, amor e superação. Nascida em Mirandópolis, ela viveu parte da juventude no Japão, onde sonhava construir sua vida. Foi lá que engravidou de Myla. “A gravidez foi planejada, mas depois ele não quis assumir. Foi um período difícil, mas meus pais estiveram ao meu lado o tempo todo”, relembra.
O retorno ao Brasil veio com a busca por apoio e estrutura familiar. No início, nada indicava que Myla teria alguma condição especial. “A gente nunca pensa que um filho pode nascer com alguma deficiência. Só fomos perceber com o tempo, quando ela começou a apresentar atraso no desenvolvimento”, conta.




O diagnóstico de autismo não verbal veio quando Myla tinha cerca de três anos — e trouxe consigo um impacto profundo. “Foi um choque muito grande para mim e para a minha mãe. Naquela época, quase não se falava de autismo”, diz.
Entre dúvidas, medos e descobertas, um dos momentos mais marcantes foi a decisão de levar a filha para a APAE. “Eu lembro que nós choramos muito só de pensar nisso, porque tínhamos uma visão totalmente diferente da instituição. Mas foi a melhor decisão que tomamos. A Myla ama a APAE até hoje”, afirma.
Ao longo dos anos, Mônica aprendeu a lidar com os desafios diários, muitos deles invisíveis para quem está de fora. “Ela é totalmente dependente, e sou eu quem cuida dela. Não é fácil. É cansativo, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Mas a gente vai aprendendo a viver um dia de cada vez”, relata.


DESAFIOS E PRECONCEITOS
O preconceito, embora menor do que no passado, ainda existe. “Hoje as pessoas estão mais informadas, mas ainda chama atenção. Antes era bem pior”, diz. Ainda assim, ela destaca a importância de não se deixar abalar. “Hoje eu penso diferente: independentemente de qualquer coisa, ela é minha filha. Não fico mais pensando no que os outros vão dizer.”
A rede de apoio foi fundamental ao longo dessa caminhada. Além dos pais, Mônica destaca o papel do irmão, Ednaldo, que assumiu uma figura paterna na vida de Myla. “Ele sempre esteve presente, correndo atrás de médicos comigo, ajudando em tudo. Foi essencial.”
Mais recentemente, um novo capítulo trouxe ainda mais equilíbrio à rotina da família. Há dois anos, Mônica vive em uma união estável com Marcos, que passou a dividir os cuidados com Myla. “Eu tinha muito medo de como ela iria reagir, mas com ele foi diferente. Existe muito respeito, muito carinho. Ele ajuda muito, e ela o chama de pai”, conta emocionada.
Mesmo com o apoio, Mônica reconhece o peso da responsabilidade. “Quando as coisas ficam difíceis, tudo acaba recaindo sobre mim. Mas eu sigo firme, porque sei que tudo que faço é por ela.”




Hoje, o olhar é outro. Mais leve, mais consciente. “Eu me sinto realizada como mãe. Tenho muito orgulho da minha trajetória. Mesmo sem apoio do pai dela, enfrentei tudo pelo bem da minha filha.”
Cada pequena conquista de Myla é celebrada como uma grande vitória. “Ela tem uma pureza que encanta. Deixa nosso dia mais leve”, diz.
IMPORTÂNCIA DA APAE
Para Mônica, a APAE é parte essencial dessa história. “O trabalho deles é impecável. O cuidado, o acolhimento… eu não sei o que seria da Myla sem a APAE. Ainda existe muito preconceito, até de pais que têm medo de levar os filhos, mas é preciso conhecer.”
Diante de discussões recentes sobre o futuro dessas instituições, ela faz um alerta: “A APAE é fundamental. Proporciona dignidade, desenvolvimento, convivência. A gente precisa valorizar e apoiar esse trabalho”, finaliza Monica.

