Artigo: Os artistas da Rua São João
Foto: Criada via Chat GPT
A briga começou de repente. A garotada estava jogando futebol na rua, naquela movimentação de sempre, quando dois dos meninos começaram a discutir. Parecia até que alguém havia dado um comando. O jogo parou imediatamente. Os garotos formaram um círculo em torno dos brigões e, aos gritos, incentivavam a rixa.
Um dos briguentos, menino franzino e moreninho, aspirando um catarro indomável que insistia em escorrer por uma das narinas, empunhava um pedaço de pau roliço e ameaçava o adversário.
O outro garoto era branquelo, bem maior, falava palavrões, ofendia o moreninho e o enfrentava de peito aberto, dizendo para ele largar o pau e brigarem de verdade. Os demais meninos riam, colocavam mais lenha na fogueira e faziam provocações. Um deles riscava o chão e gritava: Quem for homem atravessa esse risco!
Outros mandavam cuspir nos pés do adversário. O branquelo fazia tudo o que mandavam. Já o moreninho não dizia nada; apenas levantava o pau de vez em quando, caso o inimigo chegasse muito perto.
Mais pessoas começaram a aparecer. Crianças e adultos se aproximavam. Algumas mães saíam às portas de casa e observavam a cena em silêncio, afinal, não eram seus filhos. Quando comentavam alguma coisa, era para fazer observações maldosas: Só podiam ser filhos de fulana e daquela lambisgóia da rua de baixo.
Os garotos gritavam: Larga o pau! Larga o pau! Tirem o pau dele!
Se alguém ameaçava tomar o pedaço de madeira, o moreninho também o ameaçava. O rebuliço já durava mais de meia hora. A garotada parecia apreensiva, como se esperasse algo que estava demorando demais para acontecer.
Então, no portão da casa próxima à Casa Moreira, apareceu justamente quem eles aguardavam. Era W.E.S.
Ele vinha sempre visitar os tios. Tinha uns 18 anos, era arrogante, mal-educado e maldoso. Nem os próprios primos gostavam dele. Mexia com todos os meninos da rua. Quando passava enquanto jogavam bola, chutava a bola para longe só para atrapalhar.
Depois ria e provocava: E aí, remelento, não lavou a cara hoje? E você, sujeira? Olha os mosquitinhos “beiracu” voando em volta! E ria à vontade. Certa vez, deixou um garotinho apavorado ao pegá-lo pelo braço e dizer que iria capá-lo.
W.E.S chegou com o nariz empinado, dizendo que acabaria com a briga ou faria os dois brigarem de uma vez. Falava alto e olhava de lado para algumas meninas que assistiam à cena.
Você aí! — disse ao moreninho. — Me dá esse pau e enfrenta o branquelo, ou então eu tomo e te dou uma surra com ele.
O moreninho, tremendo de medo, esticou o pedaço de pau. Quando W.E.S segurou no meio do pau, o garoto puxou rapidamente. A madeira escorregou pela mão dele, deixando-a completamente lambuzada de merda. Sim, merda. Até no rosto espirrou um pouco.
Os meninos haviam coberto o pau com bosta. Como num passe de mágica, a garotada desapareceu rua afora, dando gargalhadas.
A Rua São João ficou vazia. No meio da rua, sozinho, W.E.S olhava para a mão suja, sem entender direito o que havia acontecido. Quando caiu em si, soltou um palavrão daqueles: Seus filhos da mãeeee!

