Artigo: time da feira

Artigo: time da feira

Foto: Criada via Chat GPT

A Rua São João tinha uma feira. Ela ficava em um terreno entre a casa do Matara e a casa do Pi. Os feirantes, na maioria japoneses e nisseis, montavam suas bancadas nas laterais do terreno, deixando o centro livre para a circulação dos fregueses. Em determinadas datas, realizavam campeonatos de sumô. Vinham competidores de várias cidades do Estado. Eram japoneses enormes, pesando mais de noventa quilos. Nas lutas usavam, como uniforme, uma espécie de tanga, parecida com uma fralda.

A feira era iluminada porque os feirantes chegavam de madrugada para organizar suas bancadas e também porque, durante as competições, as lutas avançavam até algumas horas da noite. Durante o dia, os meninos pulavam o muro e ficavam pelas bancadas fumando, contando casos e simplesmente fazendo algazarra. Às vezes acontecia até uma briga.

Como a parte central do terreno era grande, jogava-se futebol, bétia, bolinha de gude e até pião. Depois que o Sílvio descobriu como abrir a caixa onde ficava a chave que ligava a eletricidade, passamos a jogar à noite também.

Certa tarde, estávamos dividindo os meninos para jogar uma partida de futebol quando chegaram três garotos de outra parte da cidade. Eram maiores e mais velhos e já foram dizendo que iam jogar também.

Foi feita uma nova divisão e eu caí no time deles. Durante todo o jogo pegaram no meu pé. Eu, além de pequeno e franzino, era muito ruim de bola. Não guardava posição e, onde a bola estava, eu também estava. Os meninos me xingavam e criticavam.

O jogo estava empatado. Começava a escurecer e não iria prevalecer a regra do “cinco vira, dez acaba”. Em dado momento, chutaram uma bola em direção ao nosso gol. O goleiro deixou escapar e ela foi entrando devagar. Consegui me antecipar e parei a bola em cima da linha.

Os meninos visitantes não acreditavam no que viam e, erguendo os braços, começaram a gritar e a comemorar. O mais velho deles falou: Parabéns!

Eu, triunfante, com o pé sobre a bola, olhei para ele e respondi: Parabéns é, né? Virei-me e chutei a bola para dentro do nosso próprio gol.

Fiquei rindo e olhando para eles. Demoraram alguns segundos para a ficha cair. O mais velho gritou: Pega! Pega!

Eu já estava correndo por cima das bancadas. Outros moleques do outro time, uns filhos da mãe, também começaram a gritar: Pega! Pega! Pega!

Alcancei o muro, pulei para a rua e saí correndo, com a molecada atrás de mim. Nunca achei minha casa tão longe quanto naquele dia. Entrei feito um louco pela porta da frente. Minha mãe se assustou e perguntou: Que loucura é esta, menino? Que gritaria é essa? O que está acontecendo?

Esbaforido, sem fôlego, respondi apenas: Nada, mãe! E corri para a janela.

Os meninos, na rua, me xingavam de tudo quanto era nome e prometiam me pegar. Eu, da janela, fazia caretas e mostrava a língua para eles. 

Em toda a minha carreira futebolística, aquele foi meu primeiro e único gol contra.

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