Artigo: A Missa

Artigo: A Missa

Foto: Criada via ChatGPT

Domingo era dia de irmos à missa. Não porque queríamos, mas porque dona Minervina já havia passado no sábado em nossas casas e intimado nossas mães a nos mandarem. Já que tínhamos de ir, íamos bem cedinho, para podermos tocar o sino e ficar sendo lançados de um lado para o outro pelo badalo do enorme sino.

Quando descíamos a escadaria, na maior algazarra, rindo e falando alto, a igreja já estava lotada. Sentávamos, empurrando as pessoas, e aguardávamos a entrada do padre Epifânio.

Quando ele surgia, todo paramentado, o silêncio era total. Muito sério, com cara de bravo, seu olhar abrangia toda a igreja. Ai daquela criança que chorasse: a mãe tinha de sair. Se alguma mulher estivesse com um vestido um pouco curto ou uma blusa meio decotada, ele pedia que fosse para casa colocar uma roupa mais decente.

Seus sermões, acho que só perdiam em duração para os discursos de Fidel Castro, eram demorados e cansativos. Não aguentávamos ficar quietos. Olhávamos um para o outro, fazíamos caretas, ameaçávamos rir, mexíamos com os meninos de outras partes da cidade: Baixada do Sapo, Lasca-Bode, Baixada da Égua. Se não conhecíamos o garoto sentado à frente, dávamos-lhe um peteleco na orelha e, quando ele virava para ver quem havia sido, fazíamos cara de santinhos, compenetrados no sermão. O coitado, às vezes, acabava levando um beliscão da mãe por ter olhado para trás.

Na verdade, estávamos pensando no futebol que aconteceria depois da missa. Acho que estar na missa pensando no futebol era mais pecado do que estar no futebol pensando na missa.

Mesmo com a igreja lotada, padre Epifânio fazia questão de ser o único a distribuir a comunhão. A hóstia era sagrada: só podia ser tocada pelo padre e não podia ser mastigada, senão poderia virar sangue. Com as mãos unidas à frente do corpo e a cabeça baixa, dirigíamo-nos ao altar. Ajoelhávamo-nos e colocávamos a língua para fora à espera da hóstia. Depois nos levantávamos e, em fila, compenetrados, com as mãos ainda unidas, orávamos — ou fingíamos orar — e voltávamos aos nossos lugares.

Às vezes, o garoto da frente, de propósito, parava de repente, e o de trás trombava com ele. As pessoas seguintes iam trombando umas nas outras, numa sucessão de batidas. Ríamos disfarçadamente. Alguns fiéis também riam; as velhas nos olhavam reprovadoramente. Quando a missa terminava, saíamos em disparada, cortando caminho entre as pessoas. Eu, Cido e Silvio ainda íamos varrer o cinema para a sessão da tarde.

Certo dia fui receber a comunhão. Ajoelhei-me e, com a língua para fora, esperei o padre. Não sei se padre Epifânio errou ou se encolhi a língua antes da hora, mas a hóstia caiu no chão.

Quem conheceu o padre pode imaginar a cena. Ele falou o que podia e o que não podia. Tenho certeza de que, naquela mistura de espanhol e latim, me mandou para os quintos do inferno.

Sem saber o que fazer, sentindo aquele silêncio sepulcral que tomou conta da igreja e imaginando que até os santos, do alto de seus altares, me observavam, fiz algo pior: resolvi apanhar a hóstia.

Não sei como não fui excomungado. Padre Epifânio renovou a bronca, deu-me outra hóstia e não faço ideia do que aconteceu com a que havia caído. Voltei para o meu lugar querendo desaparecer.

Daquele dia até hoje, só comunguei mais uma vez: no meu casamento, porque a noiva exigiu e porque o padre da paróquia era o padre Lourenço.

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