Artigo: A primeira vez

Artigo: A primeira vez

Foto: Criada via ChatGPT

Quando ele chegou ao cinema, a movimentação na rua era pequena. A música, prefixo que indicava o início da sessão, já estava sendo executada. Na praça, poucos casais permaneciam namorando, sentados nos bancos mais afastados e longe das luzes. O footing havia diminuído, mas algumas moças ainda caminhavam de braços dados, lançando olhares para os poucos rapazes que permaneciam na beira da calçada, cortejando-as. A maioria já tinha ido ao cinema.

Ele permaneceu parado, fazendo um pouco de hora e recordando os fatos dos últimos dias. Tinha se surpreendido quando a irmã mais nova dela se aproximou dele, na quadra onde jogava futebol de salão, e disse: Minha irmã vai guardar um lugar para você no cinema, domingo.

Olhou para o alto da arquibancada e pôde vê-la, meio escondida atrás de um pilar. Apenas respondeu que chegaria mais tarde, porque tinha jogo de futebol.

Até chegar o domingo, passou por sentimentos variados. Ia da euforia à insegurança. Queria que o tempo acelerasse e, às vezes, queria que o tempo parasse. Naquele estado de encantamento, ousou confidenciar o encontro a um amigo. Foi do encanto à decepção. O amigo respondeu: Nossa! Sou louco por aquela loirinha. Ela nem olha para mim. O que ela viu em você?

A partir daquele momento, jurou que nunca mais se abriria com um amigo. Confiava mais nas amigas, nos seus julgamentos e até nos seus conselhos. Era leal e sincero; não respondia às provocações para não azedar a amizade, mas ressentia-se das críticas que o amigo fazia.

Criticava sua postura educada com as meninas, mas esquecia que também tinha irmãs. Criticava sua letra, mas não percebia que suas redações tinham conteúdo. Criticava seus chutes, que ele chamava ironicamente de “rapa-bosta”, mas não via que ninguém conseguia driblá-lo no futebol de salão.

Dirigiu-se à bilheteria. Intimamente, agradecia por ela ter entrado antes no cinema. Só tinha dinheiro para um ingresso. Antes, nem isso tinha. Precisava varrer o cinema e espanar as poltronas para assistir aos filmes. Agora, para conseguir entrar naquele domingo, havia deixado de ir à sessão de sábado.

A moça da bilheteria avisou: A sessão já começou. O cinema está lotado. Tem gente sentada até no corredor.

Ele entrou na sala de projeção. O filme ainda não havia começado. Enquanto seus olhos se adaptavam à escuridão, ficou assistindo ao compacto de Flamengo e Fluminense exibido pelo Canal 100. Aquela música era emocionante. Tinha certeza de que iria se lembrar dela para sempre.

Foi descendo lentamente pelo corredor, olhando para os lados. Logo a avistou. Ela olhava constantemente para trás. Ao seu lado havia uma poltrona vazia; do outro lado, a irmã mais nova. Na fileira de trás, três amigas em comum cochichavam e riam.

Ela olhou para ele e abaixou o assento da poltrona. Ele entrou na fileira, disse um tímido “oi” e sentou-se.

Não disseram mais nada. Apenas um surpreendia o outro com discretos olhares de rabo de olho. Atrás deles, os cochichos e as risadinhas eram constantes.

Os cotovelos se roçaram. A princípio, involuntariamente; depois, de propósito. Ele começou a encostar o dedinho na mão dela.

Em seguida, colocou a mão sobre a dela. Ela segurou sua mão. Entrelaçaram os dedos. Pareceu que uma corrente elétrica percorreu seu braço até alcançar o coração.

O coração disparou. Ela olhou para ele… e sorriu. Na fileira de trás, alguém perguntou baixinho: Pegou? Pegou? Veio a resposta, quase em coro: Pegou, sim.

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