Artigo: O Jogo de Bétia
Foto: Criada via ChatGPT
Domingo era dia de ir à missa. Terminada a celebração, o pessoal seguia para casa para dar início aos preparativos do almoço. Normalmente, toda a família se reunia. Os jovens da Rua São João trocavam a roupa domingueira por uma mais surrada e seguiam para o quarteirão mais famoso da rua.
Iam se sentando na sarjeta, encostando-se aos muros à procura de sombra. Havia meninos e meninas de outros lugares também: o Marques e o Vavá, da rua de baixo; o Pi e a Neusa Leite, do quarteirão de baixo; o Sérgio Zuin, da Rua do Comércio; a Geanir Pereira Nunes, da Loja Mirantex. Até o Canário, com seu fiel escudeiro, o Rosa Branca, estava presente.
Ia haver um clássico do jogo de bétia. Demá e Cido disputariam uma partida para decidir quem era o melhor. Ambos usavam bétias roliças e acertavam quase todas as rebatidas. Cido batia muito forte; quando pegava bem na bola, mandava-a quase até a Feira, que ficava no quarteirão de baixo. Demá também acertava a maioria das batidas. Não tinha a força de Cido, mas era malandro e inventava estratagemas para enganar o adversário.
Precisavam escolher os parceiros. Para isso, jogaram “pedra, papel e tesoura”. Quem vencesse escolheria entre Silvio e Sérgio.
Silvio era do mesmo nível de Cido e Demá. Só não rebatia tão bem quanto eles, mas tinha uma velocidade incrível para buscar as bolas. Sérgio não era tão habilidoso. Era tranquilo, não era malandro e muito menos briguento.
Cido escolheu Silvio. Agora precisavam decidir quem começaria rebatendo. Era importante iniciar no ataque, pois, muitas vezes, quando Demá e Cido jogavam juntos, os adversários sequer conseguiam pegar na bétia.
Pegaram uma bétia chapada, cuspiram em um dos lados e cada um escolheu “seco” ou “molhado”. Jogaram-na para o alto e verificaram quem havia acertado. Esse começaria rebatendo. Cido venceu.
O jogo começou tenso. Sérgio lançava as bolas pingando. Cido acertava em cheio e mandava-as para longe. A partida terminava quando uma dupla alcançasse 24 pontos. Silvio e Cido foram abrindo vantagem no placar. Sérgio demorava para buscar a bola. Corria segurando as calças com os cotovelos, pois não usava nem suspensórios nem cinto. Calil, na torcida, ria e gargalhava, incentivando a dupla Cido e Silvio.
Demá ameaçou lançar a bola para Silvio rebater. Este retirou a bétia do buraco. Demá quebrou a casinha. Pela regra, eles teriam de passar a vez. Não concordaram. Houve discussão. No fim, aceitaram a regra: se a bétia não estivesse no buraco, a casinha poderia ser quebrada.
Agora era a vez de Demá e Sérgio rebaterem. Silvio lançou a bola para Sérgio. Ele errou a rebatida e a bola quebrou a casinha. Demá foi à loucura.
Puta que o pariu, Sérgio! Puta que o pariu!
Calil continuava rindo e fazendo alvoroço.
Muito nervoso, Demá foi até Calil e lhe deu um tapa. Calil reagiu. Era maior e mais velho. Os dois rolaram pelo chão. Silvio, sentindo-se na obrigação de defender o amigo Demá, partiu para cima de Calil.
Calil saiu correndo, pulou o muro de sua casa e começou a gritar: Vovóê! Vovóêêê!

