Artigo: Anjos, demônios e assombrações
Foto: Criada via ChatGPT
A vontade de continuar na cama era grande, mas o sol já penetrava no quarto pelas frestas existentes entre as tábuas da parede, e minha mãe já me chamava lá da cozinha. Levantava alisando a roupa com as mãos, pois a roupa de dormir era a mesma do dia a dia, e com o rosto enegrecido pela fumaça da lamparina de querosene, acesa durante a noite para fazer as tarefas da escola. Ia até o poço, localizado no quintal, retirava água e a colocava numa bacia para lavar o rosto. Lavava a boca fazendo bochecho com um pouco d’água.
Não tínhamos água encanada, nem energia elétrica, nem esgoto. A privada ficava no fundo do quintal. Era uma casinha com um buraco e recortes de jornais fazendo as vezes de papel higiênico.
Feita a higiene matinal, apanhava a caderneta do pão e ia até a padaria. Na padaria não havia senha, fila nem ordem de chegada. O padeiro escolhia quem atender primeiro. Eu, apesar de ser um dos primeiros e estar encostado no balcão, sempre era um dos últimos.
Quando era atendido, dizia a mesma frase: minha mãe falou para o senhor dar dois gomos de pão sovado e marcar na caderneta.
Quando tinha dinheiro, passava no açougue também: minha mãe falou para o senhor dar cinco cruzeiros de carne mole.
Às vezes ela fazia eu voltar lá e, todo envergonhado, eu dizia: minha mãe falou que esta carne não está boa, é muito dura. É para o senhor trocar.
O dono do açougue aproveitava para fazer um comentário na frente de todos: ontem seu pai chegou “cercando frango”, hein!
Todos riam. A rua São João já estava acordada. As mulheres varriam a frente das casas e conversavam. Quem tinha energia elétrica ligava o rádio para ouvir os sucessos do momento. Alguns meninos já jogavam pião.
Eu ainda tinha de fazer mais uma tarefa. Minha mãe chamava: filhinhooooo.
E os meninos repetiam: filhinho, sua mãe está chamando!
Eu pedia a ela para não me chamar daquele jeito, mas ela não entendia e já fazia um novo pedido: terminei a camisa do seu Waldomiro. Vá levar na casa dele e fale para a dona Sylvia se ela pode pagar agora, porque precisamos do dinheiro.
A rua São João era o meu território, o meu mundo, o meu universo, e o de outros meninos também. Quase não passavam veículos. Havia o carroção do lixo, puxado por duas mulas; o caminhão que aguava a rua; dona Maria Portuguesa; seu Orlando Verdureiro; e o Turco, tio do Chalita, em suas carroças vendendo frutas e verduras.
À tarde, um dos Carlin passava vendendo bucho e miúdos de vaca. Às vezes passava também um ou outro carroceiro que vinha entregar lenha ou pó de serra para os fogões.
Gostávamos quando vinham as charretes, porque transportavam as prostitutas. Nós mexíamos com elas, e elas conosco. Às vezes saíamos correndo quando uma boiada vinha passando.
Não havia tanta violência e muito poucos roubos. Os meninos roubavam algumas garrafas do depósito da Casa Moreira, frutas da chácara do seu Vicente ou gibis da banca do Nani.
Naquele tempo, a capital de São Paulo só tinha quatro ladrões: Meneghetti, Sete Dedos, Bandido da Luz Vermelha e Ademar de Barros.
Para muitos meninos, brinquedos só no aniversário ou no Natal. Para mim, só quando meu pai ganhava no jogo do bicho ou quando a prefeitura distribuía.
Usávamos a imaginação e, como mágicos, transformávamos sabugos de milho em bonecos. Fazíamos papagaios (pipas) com jornais e cola de farinha de trigo. Com forquilhas de pequenas árvores e borrachas de câmaras de ar, fazíamos estilingues. Uma lata de massa de tomate transformava-se num bilboquê. Construíamos carrinhos de rolimã e apostávamos corrida empurrando um círculo de ferro com uma vareta de arame grosso.
O palavrão corria solto na boca dos meninos. Eu evitava brigar. Era muito franzino e sabia que, se apanhasse na rua, apanharia em casa também. Apanhava porque tinha apanhado e também porque, segundo meu pai, só moleque malcriado vivia brigando na rua.
Quando nos machucávamos, éramos levados à farmácia do Silvino, onde ele passava água oxigenada, iodo ou mercúrio-cromo.
Certa vez, sentado para almoçar, olhei para a comida e falei: porra! Ovo de novo!
Levei um tapa que fiquei tonto, mas ainda deu para ouvir meu pai dizer: somos pobres, mas não somos mal-educados. Aqui em casa não se fala palavrão.
Foi a única vez que ele me bateu. Batia na hora certa e quando precisava, que o diga minha filha Maria Luiza. Nunca mais falei palavrão numa conversa normal e pude transmitir esse ensinamento às minhas filhas.
Muita coisa mudou desde então. Expressões que eram comuns naquela época já não são usadas da mesma forma. Os costumes mudaram, a linguagem mudou e até a forma de enxergar o mundo também.

