Aos mestres, com saudades
Foto: Criada via Chat GPT
Era o nosso primeiro dia de aulas no GEM, Ginásio Estadual de Mirandópolis, e chegávamos com um misto de curiosidade e medo, mas, ao mesmo tempo, orgulhosos, pois havíamos passado na frente de dezenas de meninos ao sermos aprovados no Exame de Admissão. Íamos frequentar um novo mundo escolar. Deixávamos a aritmética e conheceríamos a matemática; de alunos de uma professora polivalente, passaríamos a ser alunos de professores específicos para cada matéria. Na hora da chamada, teríamos nosso nome substituído por um número. Coitado daquele que recebesse o número vinte e quatro.
Os alunos veteranos nos observavam, fazendo gozações e já nos colocando apelidos. Tivemos sorte porque o diretor Pedro Perotti havia proibido o trote a partir daquele ano. Só fomos intimados a não aparecermos mais de “cuecas” no ginásio, isto porque usávamos calças curtas. Os uniformes também mudaram: o tradicional terno cáqui e gravata foram abolidos, e o novo seria calça verde-oliva e camisa bege com gola trespassada. O de educação física seria calção azul, camiseta branca, Keds e meias brancas.
Durante esses anos de ginásio, tivemos muitos professores, alguns por pouco tempo, outros por muito tempo. Todos permanecem em nossa lembrança, mas, para o garotinho de dez ou onze anos de idade que recebeu o impacto daquela mudança, os primeiros marcaram muito.
A professora Zei nos apresentou às notas musicais, às fusas e semifusas; às colcheias e semicolcheias; ao pentagrama e à clave de sol. Aprendemos a ler a partitura e a solfejar: dó-ré-mi-fá-sol, ré-mi-fá, ré-mi, ré-dó.
Com o professor Ademar Sigristi, realizamos vários trabalhos manuais. Com tesoura, cartolina e cola, construímos vários poliedros. Com papel sulfite, nos tornamos peritos na arte das dobraduras.
O professor Onofre aumentou os nossos conhecimentos da História do Brasil, e o professor Ivan nos levou a conhecer o mundo: conhecemos os maias, astecas e incas. Ao lado de Simón Bolívar, participamos da libertação de países da América do Sul.
Acompanhamos George Washington na proclamação da Independência dos Estados Unidos, ficamos com Abraham Lincoln e o general Grant e os vimos vencer o general Lee, comandante dos Confederados, na Guerra de Secessão. Passamos por todos os períodos da história da humanidade, mas foi o Renascimento, na Idade Moderna, que mais nos agradou, com seus artistas, cientistas e literatos.
Na Antiguidade, conhecemos a coragem de Davi, a força de Sansão e a sabedoria de Salomão. Passamos medo na Idade Média com a Inquisição e sofremos as dores de Joana d’Arc. Torcemos por Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo e assistimos à Guerra dos Cem Anos. Silenciamos perante o horror de Nagasaki e Hiroshima.
Aos onze anos de idade, tínhamos aulas de latim ministradas pelo professor Sanvito. Tínhamos de saber as declinações: puella, puellae, puellarum, puellam. Suas citações em latim eram conhecidas, principalmente a que dizia quando íamos fazer uma prova: “Alea jacta est”. Ingenuamente, ele distribuía as provas para que cada aluno corrigisse a do colega. Passamos a fazer as provas a lápis.
Julio Mazzei foi embora, para o Santos, para o Cosmos, e, em seu lugar, veio o professor Jenner, que trouxe na bagagem uma bola pequena, cheia de crina de cavalo, e regras para um jogo de quadra. Era o futebol de salão. Amor à primeira vista. Paixão para uma vida toda.
Tivemos poucas aulas com dona Noêmia, uma pessoa simpática, querida por todos, mas Deus a levou. O professor Zanin veio substituí-la. Recém-formado, dinâmico, chegou querendo transmitir o que sabia e conquistou todo mundo. Fizemos experiências, conhecemos todos os ossos do corpo humano, do calcâneo ao occipital. Aprendemos que o maior órgão do corpo humano é a pele e que o coração é do tamanho da nossa mão fechada. Vimos que temos a mesma quantidade de costelas dos dois lados do corpo, apesar de a Bíblia citar que Deus tirou uma para criar Eva.
Eu acho que ELE tirou duas: com uma fez a mulher que não conhecemos e, com a outra, fez a mulher que pensamos conhecer. De qualquer modo, foi o melhor presente que ELE nos deu, melhor que a própria vida, pois, sem a mulher, a vida não teria significado.
Ela era simpática, pequenina, graciosa e nos conquistou ao nos cumprimentar fazendo beicinho: “Bonjour, mes amis”. Dona Ani desenvolveu em mim o interesse pela língua francesa. O Hino Nacional Brasileiro, o Hino da Independência e a Marselhesa são, para mim, os três hinos mais bonitos que conheço: “Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé!…”
Nós já a conhecíamos dos exames de admissão. Era grandona, rigorosa, enérgica e, às vezes, gozadora. Dona Dirce Jodas Gardel ensinou-nos que “menas” não existe, que não se diz “fazem” tantos anos e que índio é que fala “mim fazer… mim pegar…”.

Nas sextas-feiras, as aulas eram de redação. Alunos eram sorteados para apresentar uma redação na aula seguinte. Fui sorteado, e meu tema era “O entardecer”. Pedi para o Zé Pedro fazer para mim. No dia da apresentação, ele me entregou a redação. Naquele dia, o diretor, Dr. Neif, foi assistir à apresentação. Todo trêmulo, fiz a leitura da minha redação. Fui aplaudido, todos gostaram e Dr. Neif me elogiou, mas perguntou-me se já tinha lido José de Alencar. Intrigado com a pergunta, respondi-lhe que não, nunca tinha lido José de Alencar. A conversa acabou ali.
Anos depois, já no científico, lendo Iracema, qual não foi a minha surpresa ao verificar que o famoso escritor havia usado a “minha redação” para descrever o anoitecer. Que vergonha!!!! Ah, Zé Pedro!!! Ah, Zé Pedro!
Dona Celina era bonita, bonita, gostosa e autoritária. Não dava um sorriso, parecia um sargentão ministrando aula. Suas aulas eram de disciplina militar. Tínhamos de sentar eretos, olhando para a nuca do colega da frente. Se um objeto caísse, não podíamos pegá-lo. Acho que ela descobriu por quê: alguns alunos derrubavam a caneta e se abaixavam para pegar. Se fôssemos falar, tínhamos de erguer a mão e perguntar: “Teacher, may I have a question?”. I don’t speak and I don’t know English, but I learned a lot from her.
A professora Dalva Colaferro ficou pouco tempo conosco. Estava doente, tirou afastamento e não voltou mais, vindo a falecer. Dona Myriam assumiu as aulas e, com ela, navegamos pelos oceanos e conhecemos os cinco continentes. Atravessamos os canais do Panamá e de Suez, escalamos as Montanhas Rochosas, os Alpes e os Andes. Do alto do Kilimanjaro, avistamos toda a África, admiramos o Grand Canyon e nos aquecemos nos gêiseres da América do Norte. Vimos a fertilidade do Nilo, descemos o Velho Chico numa gaiola e nos assustamos com a pororoca no Amazonas.
O professor Oswaldinho e o Kazuo nos ensinaram a regra de três, que tanto galho nos quebrou, mostraram-nos que logaritmo não era nenhum bicho de sete cabeças, que hipotenusa não era palavrão e que catetos não são só porcos-do-mato.
Queridos mestres, como o lavrador que ara e semeia a terra, vocês semearam o saber. Temos um pouco de vocês na nossa formação.
A vocês, os nossos agradecimentos e as nossas saudades.

