Neca, barba e cabelo na história de Mirandópolis

Neca, barba e cabelo na história de Mirandópolis

Se falar Lourenço Marques poucos vão conhecer, mas falou no Neca, todo mundo já sabe quem é. Nasceu em Mirandópolis em 1945 (74 anos), é casado, com três filhas e seis netos, ressalta que corta cabelo de três gerações na cidade, afinal, está trabalhando como barbeiro e cabeleireiro desde os 14 anos. Confira abaixo a entrevista completa sobre sua trajetória de vida.

Como foi sua infância?
Nasci aqui em Mirandópolis, na área rural de Ribeirão Claro. Éramos em 13 irmãos, sendo que dois morreram bem novinhos, infelizmente naquela época a medicina não era avançada e não tínhamos tanto recurso. Cresci até os sete anos lá, meu pai era carroceiro e depois tropeiro, mas como ele vivia com problema na úlcera decidiu mudar para cidade para trabalhar como barbeiro.

Começou a trabalhar cedo?
Meu pai me colocou para trabalhar primeiro como engraxate, lembro que ele me deu uma caixa e os produtos e com isso eu ficava na redondeza engraxando sapatos. Daí com uns 12 anos meu pai comprou aquela caixa grande pro cliente sentar e com isso eu engraxava dentro do próprio salão, com isso já comecei a trabalhar do lado dele mesmo, só engraxando na época.

E quando começou a fazer barba e cortar cabelo?
Naquela época lembro que apareciam algumas crianças no salão pedindo pro meu pai cortar o cabelo de graça. Daí ele falava que eu poderia cortar o cabelo deles sem cobrar, isso para treinar. Quando fiz 14 anos meu pai comprou uma cadeira e falou que iria começar a trabalhar com ele fazendo barba e depois cortando cabelo. Trabalhei junto com meu pai até 1983, foi quando abri um salão próprio na frente onde hoje é o banco Santander. Lembro que depois fiz alguns cursos de cabeleireiro em São Paulo e atendia tinha uma grande clientela de mulher.

Naquela época atendia muitas mulheres?
Pra você ter ideia as pessoas não conseguiam marcar horário comigo em menos de 20 dias, sem brincadeira. Tinha uma agenda completamente cheia porque não tinha muitos profissionais. O interessante é que 90% da minha clientela na época eram mulheres, daí fazia reflexo, tintura, permanente, mecha, fazia de tudo para ser sincero.

Ficou naquele prédio por muito tempo?
Trabalhei quatro anos nesse local, daí a Dona Terko, que era a proprietária, pediu o prédio. Fiquei procurando um local até que o Bizaio emprestou um espaço onde ele tinha a loja. O problema é que o ambiente não era ideal para receber as mulheres e com isso foquei no atendimento masculino, corte e no máximo uma escova. Fiquei alguns anos nesse local lá até que o próprio Bizaio montou o prédio em cima da Caixa Econômica. Mudei para lá e fiquei uns trinta anos atendendo, até 2015 mais ou menos.

Tem algo que lembra com carinho?
Lembro que naquela época fui o pioneiro em trabalhar com hora marcada, ninguém trabalhava assim com agenda aqui em Mirandópolis. Foi difícil conseguir um telefone, mas pra você ter ideia consegui e é o mesmo número que tenho até hoje (3701-1922).

E a escola?
Estudei inicialmente até o quarto ano, parei para trabalhar com meu pai quando vim para a cidade. Daí quando tinha mais ou menos uns 16 anos fui fazer o Madureza, que é o supletivo, lembro que fui para Três Lagoas e Campo Grande para fazer as provas para conseguir formar o colegial. Com 26 anos me casei, daí foi quando fiz uma prova de adaptação para fazer o técnico de contabilidade, consegui me formar. Depois coloquei na cabeça que queria fazer técnico de enfermagem, também me formei.

O que mais fez na vida?
Brinco que só não roubei (risos)! Já contei que fui engraxate, barbeiro e cabeleireiro. Em 1968 trabalhei dois anos no Banco Bandeirantes, entrei como contínuo e depois fui subindo, só que daí o banco fechou e não dei continuidade. Depois que formei como técnico em contabilidade fui trabalhar no escritório da antiga Casa Moreira, fiquei alguns anos lá. Sem contar que fui cobrador de ônibus para ganhar um dinheiro extra. Trabalhava de noite e início da madrugada percorrendo um trecho na área rural. Eu ficava como cobrador.

Pensa em aposentar?
Só paro de cortar cabelo quando Deus quiser, porque enquanto tiver saúde pode ter certeza que vou estar cortando cabelo, porque realmente é algo que tenho muito prazer em fazer. Assim como jogar futebol, isso também só vou parar quando Deus quiser, porque é algo que gosto muito de brincar.

Qual mensagem deixa para o povo mirandopolense?
Tenho muita gratidão e sou muito feliz por ter nascido aqui, tanto que se alguém falar mal da cidade defendo com unhas e dentes a nossa cidade. Sei que é difícil, mas ainda espero ver Mirandópolis crescer em emprego e dar um oportunidades para o povo mirandopolense.

Primeiro salão que o Neca montou sozinho foi em 1983 e ficava na frente do atual Santander

                       
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