Reflexões quaresmais (4)

Reflexões quaresmais (4)

Foto: Agostinianos

Do mesmo padre que mencionei no artigo da semana passada, ouvi novamente uma bela homilia, desta vez sobre o segundo domingo da Quaresma. Em ambas, ele falava com alma, gesticulando e mexendo o corpo. E nesta última, enaltecia a fé de Abraão – o chamado “pai da fé” –, que tendo esperado tanto tempo para ter um filho, ofereceu-o a Deus quando lhe foi pedido. É o que relata a primeira leitura da liturgia do domingo passado, do Livro do Gênesis, cap. 22, versos 1-2.9a.10-13.15-18.

O trecho bíblico é tocante: “Naqueles dias, Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”. E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar” (versos 1-2). Sob a aparente frieza do texto se desvela um grande mistério, desgraçadamente incompreendido pela maioria dos homens: a obediência a Deus. A desobediência de nossos primeiros pais originou uma dívida que só poderia ser saldada pela obediência, da qual Abraão é um modelo.

Na pessoa e na atitude de Abraão conseguimos antever tanto a ação de Deus Pai quanto de Jesus, Deus Filho: se um homem, embora com elevado grau de santidade, é capaz de doar seu próprio filho, quanto mais Deus Pai não o seria… E se um homem é capaz de chegar a esse ponto de obediência a uma ordem divina, quanto mais Jesus não o seria, até as últimas conseqüências. Como diz São Paulo em sua Carta aos Filipenses, “sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (cap. 2, v. 8).

Queridos irmãos, a nossa fé tem que ser provada: ela deve passar pelo crivo da fidelidade e da obediência e é por isto que na Quaresma nós buscamos calar as vozes dos próprios desejos para ouvir a voz de Deus. Neste tempo oportuno de conversão, temos que pedir a fortaleza interior para obedecer antes a Ele do que a nossas paixões, especialmente as desordenadas. E assim, mais maduros e fortalecidos, estejamos mais perto da salvação e colaboremos para que cresça ainda mais o número dos filhos de Deus, a descendência prometida por Ele a Abraão.


                       
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