Ônus

Ônus

Foto: Canção Nova

Há quem diga ter sentido uma dor tão grande na alma a ponto de preferir um sofrimento físico. Os relatos dos santos que tiveram experiências místicas no purgatório e no inferno corroboram isso: lá estão somente as almas dos falecidos – seus corpos ressuscitarão quando Jesus voltar – e os sofrimentos são atrozes. Assim, é natural tentarmos fugir do mal físico, mas, além dos santos, quem já esteve na solitária da depressão ou de algum outro sofrido estado interior é que pode dizer o quanto isso pode ser desesperador… 

O que terá passado na mente de Jesus quando suou sangue no Horto das Oliveiras? O que terá sentido Deus feito homem, o Logos eterno, o Rei do universo, para chegar a esse estado? E quão aguda terá sido a aflição de Nossa Senhora ao vê-Lo padecer os piores suplícios? Nem Ele nem Ela, nada disso mereciam…

Neste mês em que comemoramos o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, meditemos um pouco sobre a dor que Eles sentem – e não só Eles, mas também o Pai, o Espírito Santo, os Anjos e Santos dos Céus –, pois o amor implica comprometimento, renúncia e cruz. Tantas vezes Deus é acusado de inoperância por não realizar algo, sua bondade e providência postas sob suspeita por conta da maldade disseminada, seu amor escarnecido… Seus próprios filhos cometem tais pecados… Ele tudo faz para o nosso bem e salvação, e muito do que recebe em troca são ofensas… Foi o homem, tentado pelo demônio, quem causou a desordem no mundo, e para muitos Deus é o culpado – Ele, o único que pode restaurar a ordem e a paz.

Nessa dura e longa batalha da vida, que ninguém veja Deus como inimigo. O fato de Ele permitir o sofrimento se explica por dois caminhos: primeiro, Cristo e a Virgem Maria, sem merecer, padeceram terrivelmente. Depois, o caráter redentor do sofrimento: quem o aceita e verdadeiramente o oferece aos Corações de Jesus e Maria, permite que ele ganhe sentido e se torne instrumento de graça e salvação.

Deus é imutavelmente bom. Nós sofremos nossas próprias dores, as de quem amamos, conhecemos ou imaginamos, mas Deus, que tudo vê, tem diante de Si, ininterruptamente, toda a dor da humanidade toda. Ele a permite como um pai que aceita o remédio amargo ao filho à beira da morte. O ônus maior, neste vale de lágrimas em que pisamos, é o d’Ele e não o nosso.


                       
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