Irineu Mantovanelli, um contador de (boas) histórias

Irineu Mantovanelli, um contador de (boas) histórias

Aos 80 anos com uma memória impecável, esse é Irineu Antonio Mantovanelli, que nasceu em 1939 em Olímpia, passou por Guararapes até chegar em Mirandópolis, em 1954. Com uma vida dedicada a tipografia, que é a arte de montar textos para serem impressos, ou seja, uma forma de “diagramar” as páginas antes da existência do computador e dos softwares de design, Irineu trabalhou no jornal O Labor, entre a década de 60 a 80. Confira abaixo a entrevista completa.

Nasceu e cresceu aonde?
Nasci em Olímpia em 1939, com dois anos fui para Guararapes porque meus pais trabalhavam na lavoura. Lá fiquei até 1954, quando vim para Mirandópolis. Cresci em uma casa com duas irmãs e comecei a trabalhar cedo na roça de café. Daí em 1960 tive um problema na coluna e precisei ir tratar em Rio Preto, fiquei com um colete nas costas por meses e com isso não conseguia ajudar na lavoura, vou daí que me indicaram para trabalhar em uma gráfica.

Foi do problema que entrou na gráfica?
Isso, fiquei dois meses em Olímpia aprendendo a profissão de tipografo. Foi quando meu pai estava com um tio em Dracena e conheceu um pessoal que tinha gráfica. Na época procurei emprego em Mirandópolis, mas naquela ocasião não tinha nenhuma vaga em aberto. Fui para lá em setembro de 1960 e eles faziam o jornal A Semana. Fiquei até abril de 1961, foi quando a empresa teve problemas e precisou demitir alguns profissionais, com isso entrei na leva e voltei para Mirandópolis.

Voltou para trabalhar?
Cheguei em Mirandópolis e comecei a trabalhar na gráfica do Seu Idanir. Lembro que morava no Km 52, andava até o Km 50 e pegava um ônibus que vinha de Pereira Barreto, no fim do dia a mesma coisa para voltar pra casa. O problema era no dia que chovia, era lama até o pescoço (risos).

Então fez parte do jornal O Labor?
Lembro que em agosto de 1962 Seu Idanir fundou o jornal O Labor, que circulou até 31 de dezembro de 1983. Além de ser tipografo, fui impressor e diretor comercial por muitos anos. Lembro que entre os saudosos redatores tinha o professor Durval Nery Palhares, Moacir Benetti e Leonel Matias. No sábado entrava às 7 da manhã, podemos dizer que ficava 24 horas trabalhando para que no domingo cedo o jornal circulasse às 6 horas normalmente. E naquela época também tinha o jornal A Cidade, que era da gráfica do Joaquim Alves e Altino Lorena Machado.

Como lida com a tecnologia?
Posso dizer que muito bem, melhorou e facilitou muito o meu trabalho. O tipografo montava a letra manualmente, imagina como era. Com o computador tudo ficou mais ágil. Aprendi a fazer o carimbo e até o trabalho de arte finalista cheguei a fazer. O engraçado é que o barulho das máquinas trabalhando na gráfica soa como uma música aos meus ouvidos. Fico dois dias dentro de casa, no terceiro já preciso vir trabalhar, não aguento, isso é a minha vida.

Hoje qual é a sua ocupação?
Tenho uma fábrica de carimbo, daí venho aqui fundir na gráfica do Chicão Momesso, mas não tenho nenhum vínculo empregatício com ele. E quando tem algum serviço que precisa ser feito na máquina mais antiga também ajudo o pessoal, porque ainda tenho experiência e consigo ajudar de alguma forma.

Quais as lembranças do passado?
Lembro de personagens como Hélio Faria e Pedro Perotti. E recordo principalmente do cinema, onde trabalhei quase três anos como porteiro. Saia da gráfica, tomava banho e já ia pro cinema. Lembro do Marcão (da loja Marcos Calçados) e do Dominguinhos que ficavam insistindo em entrar sem autorização. É que tinha dia que eu deixava, mas o problema era no dia que o comissário de menor estava lá, daí não tinha como liberar e eles ficavam doidos querendo assistir o filme.

Qual sentimento quando lembra dessa trajetória?
Tenho muito orgulho da minha família, principalmente da minha esposa que sempre foi muito companheira. Fomos pautados pelos bons princípios, isso ajudou demais na nossa vida. Passamos algumas dificuldades para cuidar de cinco filhos, a minha mulher fez curso de corte e costura e vencemos na vida. Olhando essa trajetória só posso confirmar que sou um apaixonado por Mirandópolis, pois foi a cidade que me acolheu e que formei a minha família, só tenho agradecimento a população de uma forma geral.