‘Vivi toda história de Mirandópolis, cheguei aqui em 1938 e acompanhei a evolução do município’, conta Vina Ramires

‘Vivi toda história de Mirandópolis, cheguei aqui em 1938 e acompanhei a evolução do município’, conta Vina Ramires

Conversamos com Etelvina Lustosa Ramires, conhecida popularmente como Vina, que nasceu em 1935, em uma fazenda em Guararapes, e chegou em Mirandópolis em 1938. Perdeu o marido ainda nova e precisou superar diversos obstáculos para criar os três filhos. Confira na sequência a entrevista completa sobre sua trajetória de vida.

Como foi sua infância?

Nascida em 1935 em uma fazenda perto de Guararapes, chamada Fazenda Rio Preto. Meus pais tiveram seis filhos, dois homens e quatro mulheres, agora sobrou só eu. Eu era a irmã caçula, minha irmã mais velha que morava em Uberlândia morreu com 97 anos. Eu também quero chegar lá. Meu pai trabalhava de administrador da propriedade, viemos quando eu tinha três anos. Cheguei aqui em 1938, posso dizer que sou da época da fundação da cidade, lembro do Manoel Alves de Athaíde, ele era amigo do meu pai. Quando chegamos na cidade meu pai comprou uma padaria, depois não deu certo e ele foi trabalhar com o Belmiro Jesus. Estudei onde era o Sesi, ali foi o primeiro grupo que teve na cidade, mas na verdade fui estudar depois que o meu pai morreu, morreu quando eu tinha 10 anos, então eu já entrei grandona na escola (risos).

Quando você começou a trabalhar?

Meu primeiro emprego foi com 14 anos, trabalhei na Chevrolet, que era uma loja de peças que ficava embaixo de onde hoje é a rádio (Massa), também trabalhei na firma do Sr. Belmiro, mas sai logo e depois fui trabalhar na Pernambucanas, onde fiquei até antes de me casar. Casei em 1955 e depois de casada fui trabalhar no hospital, meu marido já trabalhava lá e prestei concurso e consegui entrar. No hospital trabalhava o meu marido, minha irmã, meu irmão, eu e a minha cunhada. Parei de trabalhar no hospital porque depois acabei indo embora para Uberlândia, mas só morei seis meses lá e voltei para Mirandópolis, onde eu estou até hoje e não saio nunca mais (risos).

Quais as lembranças de Mirandópolis?

Lembro do primeiro prefeito que tivemos na cidade. Ele desfilou, tinha uma bandinha com uns músicos tocando e ele andando a pé pelas ruas da cidade. Não tem fotos, mas eu lembro direitinho. Um ponto da cidade que me marcou foi a praça, que era muito bonita no meu tempo de criança. Também não tem como esquecer da grande explosão que teve na estação, onde os vagões pegaram fogo. Nessa época (1946) eu morava na fazenda, lá tinha uma varanda grande em volta da casa, a gente estava sentado. Aí nós vimos uma bola de fogo diferente e ficou aquela conversa questionando o que seria. O meu marido morava ali na padaria São João, eram quatro homens que moravam em um quarto e eles foram salvos por uma ripa que segurou a parede e não deixou cair em cima deles. Tremeu e quebrou tudo. Além disso, tenho excelente lembranças do Dr. Edgar, ele era baiano e minha mãe pernambucana, ele gostava de comer a comida que a minha mãe fazia, então sempre ele ia lá na fazenda.

Tem outras lembranças?

Várias, uma que me marcou é que meu marido faleceu em 1974, daí em 1975 teve a famosa geada, eu ainda trabalhava no hospital e estava tentado comprar um gado para colocar no lugar dos que eu tive que vender logo depois que ele morreu porque a gente não tinha dinheiro para nada. Eu tinha aprendido mais ou menos como era, então veio o caminhão e eu fui no banco e como não tinha feito inventário ninguém emprestava nada. Ai foi aquela coisa, briguei com Deus e fiquei brava com ele, disse “eu sou uma boa filha, o senhor está vendo a situação em que eu estou”, aí eu fui no Dr. Afonso e perguntei se ele não queria comprar as vacas que eu tinha pedido, porque o homem estava com o caminhão e eu não podia comprar, então ele disse que ia ficar porque estava precisando mesmo. Isso foi algumas semanas antes da famosa geada de 75, onde eu não consegui comprar o gado. Lembro que no dia seguinte da geada o meu filho foi no hospital e me chamou para ir no sítio, chegando na porteira me deu uma crise, eu chorava e pedia perdão para Deus, porque na verdade ele tinha me ajudando, pois me livrou de perder tudo porque o pasto ficou tudo preto, nos coqueiros até os cocos cozinharam.

Sua vida foi marcada por superações?

Perdi meu pai quando tinha 10 anos de idade. Meu marido faleceu em 1974, com 42 anos. Foi uma fase muito difícil porque tínhamos três filhos jovens, com 12, 15 e 17 anos. Na época que o Oswaldo morreu eu não tinha condições de pagar farmácia, açougue, entre outras contas. O Sérgio Zuin foi um anjo da guarda, assim como o José Antônio, que também foi muito bom para mim, porque ele era muito amigo do Oswaldo e por isso falava que não queria que eu deixasse as crianças passando necessidade, que se não pudesse pagar nesse mês, podia pagar no outro, então eu tenho muita gente para agradecer, porque nessa época muita gente nos ajudou. Tenho um carinho muito grande por diversas pessoas, seria injusta agradecer cada um porque posso esquecer, então faço um agradecimento geral para todos que fizeram e fazem parte da minha vida.

Foto: Vina com sua filha Denise em sua residência


                       
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