Razões

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Foto: Biblioteca Católica

Na homilia que ouvi no domingo passado o pregador dizia que as marcas da crucifixão permanecerão no corpo do Senhor por toda a eternidade, nos recordando do amor sacrificial de Deus por nós. Já pensei nisso, mas não me recordo de ter lido nada a respeito, e me parece que pode ser assim mesmo. Sendo ou não, na eternidade ninguém se esquecerá do sacrifício de Jesus, mesmo os condenados, em meio a blasfêmias e remorsos. Acontece que nós peregrinos, mesmo fiéis, muitas vezes nos esquecemos… Entre os infiéis, muitos nunca sequer cogitam avaliar a veracidade da Paixão e Ressurreição do Senhor, mas o cristão autêntico não se cansa de agradecer a Deus, como um escravo à venda que é imediatamente solto pelo seu comprador – os santos são prova dessa gratidão.

Atualmente muitos acham que a Quaresma é tempo de penitência, a Páscoa é de alforria e o restante do ano é como um ofurô – uma espécie de banho-maria espiritual. Não é assim. Os franciscanos, nos seus primórdios, eram conhecidos como a Ordem dos Penitentes, pois assim viviam e se vestiam – na Antigüidade e na Idade Média, pelas vestes se comunicava o status ou aquilo que a pessoa fazia, como se lê por exemplo nos Livros de Daniel (cap. 9, v. 3), Ester (cap. 4, vv. 1-3), Jonas (cap. 3, vv. 5-9) e Neemias (cap. 9, 1-4).

Na primeira leitura da Missa do domingo passado, ouvimos o grande discurso de São Pedro aos judeus, admoestando-os por terem matado o Senhor: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados” (Atos do Apóstolos, cap. 3, 19). E na segunda leitura, a afirmação terna mas assertiva: “Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis” (Primeira Carta de São João, cap. 2, v. 1). Estamos no tempo da Páscoa mas o sacrifício de Jesus não pode ser esquecido; como consta no rito do Sábado Santo, logo após a bênção do fogo novo, o sacerdote diz, ao inserir os cravos no círio antes de acendê-lo: “Por suas santas chagas, suas chagas gloriosas, o Cristo Senhor nos proteja e nos guarde. Amém”.

Como ouvimos no Evangelho do domingo passado, de São Lucas, o Senhor diz aos apóstolos, que pensam estar vendo um fantasma: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!” (cap. 24, v. 39). Ou seja, há razões para a alegria – a Ressurreição – e razões para a austeridade – nosso pecado e a Paixão. Fiquemos com ambos, louvando a Deus e buscando a conversão e o progresso espiritual, para nós, os nossos e o mundo inteiro.


                       
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