Sem recortar nada

Sem recortar nada

Foto: Freepik

Com a Ressurreição do Senhor não há volta ao que era antes, mas houve como que uma recriação da Criação – com o perdão da redundância. Ainda que permaneçam os sofrimentos e tribulações, o dom da fé, infuso por Deus na alma do cristão, capacita-lhe a enxergar as coisas a partir dos fatos principais de toda a história: o Verbo eterno se fez homem, padeceu na Cruz vencendo a morte e ressuscitou ao terceiro dia.

São Paulo ensina na Segunda Carta aos Coríntios, cap. 5, v. 17: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!”. E ninguém sabia até que fosse revelado: desde o início dos tempos todas as obras de Deus já concorriam para a vinda de seu Filho, assim como, após sua Ressurreição e Ascenção aos Céus, elas concorrem para sua volta definitiva. Assim, quem adere realmente a essa verdade ganha vida nova – “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância”, diz o Senhor no Evangelho de São João, cap. 10, v. 10.

Mas isso não leva o fiel a se esquecer dos fatos passados, mas compreendê-los e captar seu sentido; e a prova disso é que o distintivo do cristão não é a imagem de Jesus ressuscitado, mas crucificado. No peito, a pessoas carregam uma cruz, nas procissões da Missas, a cruz vai à frente, e nas paredes de muitas casas se vê pendurado um crucifixo. Ao incauto soa incoerente, mas o fiel sabe que o seu Senhor, antes de vencer o mal, o diabo, o pecado, o mundo e a morte, primeiro passou pelo suplício.

O fio condutor de tudo isso é o amor: em cada ato de Deus, desde quando pensou em criar o mundo, há um amor imenso e indefectível. Por isso não falamos só da Ressurreição do Senhor, nem só de sua Morte, mas de sua Paixão, Morte e Ressurreição. Por isso é que no Terço nós meditamos alguns dos mistérios da vida de Jesus e da obra salvífica, e por isso também que no Tempo Pascal nós lemos o Livro dos Atos dos Apóstolos, que são uma extensão das obras de Cristo – “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai” (Evangelho de São João, cap. 14, v. 12).

Por isso, no dia a dia, seguindo os tempos litúrgicos, meditemos e rezemos sobre as realidades da nossa fé, baseados na totalidade dos fatos, sem recortar nada, experimentando assim os tesouros de vida, luz e graça que Cristo e a Igreja nos oferecem. E que a alegria que vem do Senhor continue contagiando nossas mentes e corações!


                       
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