Desconcertante

Desconcertante

Foto: Arquidiocese Juiz de Fora

“Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande redentor”, ouvimos entoar numa das versões do Exultet, o hino da Missa do Sábado Santo, entoado logo após a procissão solene de entronização do círio pascal. No original latino, “O felix culpa, quae talem ac tantum habere meruit Redemptorem”, composto pelo grande Santo Tomás de Aquino que, inspiradíssimo, nos insere nesse imenso e incompreensível mistério de amor! Como ensina São Paulo Apóstolo na Carta aos Romanos, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (cap. 5, v. 20).

É com um misto de alegria e desconcerto que o cristão maduro encara essa realidade. Aos incipientes na fé, é comum a incompreensão, e aos egocêntricos, um acordo estranho de alegria e oportunismo, semelhante aos aproveitadores, invejosos e ladrões, que desejam tirar algo do outro. Mas o homem de fé, que anseia pelo Deus vivo, sente quase que um constrangimento por ser tanto o autor do sacrifício quanto seu beneficiário… É mesmo de embargar a voz e encher os olhos de lágrima, pois Deus é bom, muito acima tanto dos nossos méritos quanto das nossas expectativas.

No mesmo hino, ouve-se ainda: “Noite mil vezes feliz / Deus, por nós, Seu filho deu / O Filho salva os escravos / Quem tanto amor mereceu? / Bendito seja Cristo Senhor / Que é do Pai imortal esplendor”. Que realidade maravilhosa! Que amor imerecido! A felicidade trazida pela Ressurreição de Nosso Senhor clareia nossas trevas, dá sentido à vida e nos faz seguir adiante! Daí nossa gratidão não só pela Ressurreição, mas por toda a obra salvífica! Por sua Paixão e Morte, por seus ensinamentos, gestos e milagres, sua vida escondida em Nazaré, sua infância, nascimento, encarnação… por seus pais que d’Ele cuidaram, os profetas que O anunciaram, os autores bíblicos que d’Ele escreveram…

Deus é infinitamente bom, no todo e em cada detalhe, escondido ou revelando-Se, ontem, hoje e sempre! Que nesse santo Tempo Pascal subam a Ele nossos mais belos louvores, fruto de gratidão sincera e amor filial!… Ele merece o nosso melhor, as nossas mais altas qualidades, a nossa inteireza; Ele merece a nossa vida, pois não poupou a sua para nos remir, por amor – o mais puro, belo e excelso amor, que curva a arrogância dos soberbos, eleva os puros e simples e desconcerta a todos. Apesar da indiferença de muitos, o clarão da Ressurreição não poupa nada nem ninguém, mas refulge na criação inteira.


                       
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